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Equipamentos sociais na construção do lado de lá: breve análise do nascimento das periferias e a mídia

Janaine Aires

Vários equipamentos sociais atuam no processo de constituição de subjetividades que naturalizam e naturalizaram a concepção de que pobreza e criminalidade são indissociáveis. A mídia é um deles.
Cecília Coimbra, autora do livro Operação Rio: o mito das classes perigosas - Um estudo sobre a violência urbana, a mídia impressa e os discursos de segurança pública, busca reconstituir aspectos relacionados com a formação de espaços urbanos específicos do Rio de Janeiro para discutir a abordagem midiática da "Cultura da pobreza" e sua vinculação a construção subjetiva do que vem a ser as "classes perigosas".
A formação de determinados espaços urbanos do Brasil, legitimada por teorias da metade do século XIX, pode ser uma chave explicativa para entender o processo de consolidação desta perspectiva complexa que cria "as classes perigosas" e uma visão de periferia fundamentada no medo e na necessidade de repressão.
A expressão "classes perigosas" vem sendo utilizada desde a segunda metade do século XIX para se referir a pessoas que se caracterizariam pela passagem em espaços de detenção ou mesmo por viver fora do mercado de trabalho e ainda para designar aqueles que viviam à margem da sociedade civil. O processo de urbanização do Brasil data do século XVIII, mas é no final do séc. XIX, com a industrialização, que este processo avança. A cidade atua como expressão de uma relação social e como sua materialidade e é geradora de pobreza - tanto pelo modelo econômico que suporta, como pela sua organização espacial.( COIMBRA apud SANTOS, 1994) A cidade é uma construção que abriga um conjunto articulado que une a zona nobre e os territórios de pobreza.(COIMBRA, 2001)
O termo theoría está ligado a ação de contemplar, olhar, examinar, especular. Ao longo dos tempos, diversas teorias embasam concepções sobre as classes menos favorecidas e legitimam políticas públicas e subjetividades necessárias para controlá-las. Cecília Coimbra traz como exemplo a participação da "craniometria" na definição da inteligência como uma coisa única, inata, hereditária e mensurável e mesmo para identificar "os perigosos sociais" através de características anatômicas. As teorias eugênicas, o darwinismo social, o movimento higienista legitimaram missões de "saneamento moral" da sociedade brasileira, tornando engajada a sociedade científica do país na limpeza e correção dos espaços da cidade que pudessem abrigar estas classes.
A mídia é um importante instrumento na construção do que Rizzini (1997) descreve como os pobres viciosos e os pobres dignos, conforme aponta Cecília Coimbra. Nada mais apropriado para exemplificar esta afirmação do que os inúmeros personagens - sejam das telenovelas, ou mesmos as vozes de autoridade das matérias jornalísticas - que fortalecem o trabalho como agente da dignidade do homem e aqueles que não pertencem ao mundo do trabalho como portadores de delinqüência.
No Rio de Janeiro, a gestão do médico sanitarista, Francisco Pereira Passos, adotou a reforma urbana parisiense para transformar a capital da República do Brasil em um símbolo de um país novo e moderno. O centro da cidade que era habitado, em grande medida, por ex-escravos e assalariados tornou-se o palco onde foi orquestrado o deslocamento compulsório dos moradores da região para as zonas suburbanas e as encostas dos morros: nasciam as hoje temidas favelas cariocas. As ruas do centro passaram a ser o espaço de circulação daqueles que seguem para consumir e não dos miseráveis.
É possível observar a aplicação deste tipo de estratégia de ordenação dos espaços urbanos em outras cidades do Brasil, que em maior ou menor grau, delegam espaços para o abrigo das "classes perigosas". Espaços caracterizados pelo isolamento, pela segregação, pela exclusão dos subalternos. Concentrando os "miasmas" no lado de lá da cidade.
Na grande João Pessoa, o processo de construção dos espaços perigosos, tão evidenciados pela mídia local, teve algumas semelhanças com o descrito acima. O Bairro São José é um exemplo. Surgiu como um "assentamento espontâneo informal desordenado" é o maior da capital paraibana e está situado entre bairros nobres e próximos do maior shopping center da cidade. "Esta situação é fruto do processo de urbanização excludente e fragmentada desde as primeiras ocupações na área nos anos 70, sendo ícone da "cidade partida" que perdura por mais de três décadas."(LIMA)
Há quatro décadas, nascia o maior empreendimento turístico da cidade: o Hotel Tambaú. Talvez poucos paraibanos saibam, mas o surgimento do bairro São José é uma das conseqüências da aplicação de uma política semelhante visando a modernização da cidade.
“O Hotel Tambaú foi inaugurado, no ano de 1971, exatamente no lugar onde havia um areal repleto de coqueiros e a caiçara dos pescadores, além de ser o ponto preferido dos banhistas. Juntamente com o hotel e a partir da sua inauguração, toda orla passou por modificações na estrutura de serviços, infra-estrutura viária e de outros equipamentos urbanos. A inauguração da ostentosa redoma de concreto armado, tomando o lugar do pequeno galpão de madeira coberto por palhas de coqueiro que servia de abrigo ao trabalho terrestre dos pescadores varreu do mapa a comunidade dos pescadores de Tambaú. [...] Os pescadores de Tambaú, essa antiga comunidade tradicional que Mário de Andrade conheceu e registrou, na dança do coco, quando aqui esteve em 1929, foram expulsos do seu território. A partir disso, foram confinados no que hoje é o Bairro de São José, lá por trás do Shopping Manaíra. (CIACCHI)
Hoje, ainda podemos apontar mecanismos de aplicação desta mesma política. A comunidade do Porto do Capim está sendo deslocada a troco da Revitalização do espaço, através de uma parceria entre o governo municipal e o governo espanhol. O mesmo acontece com a Comunidade da Penha que está sendo deslocada para a construção de um resort na area. Estas ações geram uma série de demandas para tais comunidades que muitas vezes não são supridas pelas políticas públicas e está fundamentada na mesma concepção de reordenamento urbano que segrega as classes subalternas à medida que o espaço que elas ocupam é valorizado. A mídia tem se mantido afastada destes processos na capital. Há pouco registro da história destas comunidades e pouca discussão sobre as conseqüências deste deslocamento.
O bairro de Mandacaru tem “grande espaço” na abordagem do jornalismo policial paraibano graças ao alto índice de violência. Em uma breve pesquisa na internet é possível encontrar uma definição sucinta da comunidade, na qual reside um grande perigo: “Mandacaru é um bairro da zona norte da cidade de João Pessoa, Paraíba. Nele se localiza o famoso Alto do Céu, considerada a mais violenta comunidade pessoense.” É preciso assinalar os riscos que tal enfoque sugere, já que pode apontar para a necessidade constante de vigilância e repressão contra os que ali vivem. Isto é possível a partir do momento em que a identidade daquela comunidade é afastada do processo histórico que o criou e logo “[...] através de um pequeno truque lógico, então, reproduz-se a ideologia da classe dominante e se fornecem novos elementos para justificar a opressão social.”(COIMBRA apud CHALLOUB, 1986)
A dinâmica do jornalismo – a sua velocidade e suas estruturas de autoridade – quando aplicada a casos que demandem maior aprofundamento como a questão da segurança pública e da aplicação de políticas públicas no geral demonstra falhas. Discutir este processo e a participação da mídia, sua abordagem e sua colaboração para a legitimação da percepção criminalizante de espaços, nascidos de processos como este, é uma necessidade e um caminho fecundo a ser trilhado pela academia e pela sociedade.

Janaine Aires
É estudante do Curso de Comunicação Social/Jornalismo da
Universidade Federal da Paraíba e
membro do Observatório da Mídia Paraibana.
janaineaires@gmail.com

# artigo gerado a partir das reflexões sobre o Livro
Operação Rio: o mito das classes perigosas - Um estudo sobre a violência urbana,
a mídia impressa e os discursos de segurança pública, Cecília Coimbra. 2001
lido coletivamente pelos membros do grupo de pesquisa.

Janaine Aires / Autor

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