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A dimensão do lucro X respeito à dignidade humana

Janaine Aires

A ação movida pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a TV Correio ampliou ainda mais o debate sobre o papel da mídia na Paraíba. Vieram à tona temas muitas vezes negligenciados quando se discute a mídia no estado, como: a concessão pública, o respeito à dignidade das vítimas, os direitos dos telespectadores, o papel dos patrocinadores, o limite para a conquista da audiência. Sobretudo, pudemos ver a força que o poder público pode imprimir às empresas que operam concessões públicas. No entanto, não se pode negar que, mais uma vez, nos pegamos temorosos de que o poder econômico destas empresas obstaculize a aplicação da lei.

Depois da repercussão da atitude do MPF, o que se viu nas telas da TV Correio ao meio-dia foi o mesmo show de horrores de sempre. Ainda na sexta-feira, o programa exibiu aquelas imagens sanguinolentas que estamos, cada vez mais, acostumados a ver. Nelas sempre resta a dúvida se os repórteres e os cinegrafistas ainda exercem a atividade jornalística ou mudaram de profissão e se tornaram peritos criminais.

Samuka Duarte, que na semana do ocorrido havia anunciado filiação ao PSB, louvada pelo presidente do partido “pela postura profissional” do mais novo parceiro da luta “socialista”, não cansou de repetir que aquele era o programa que “não esconde a verdade”, e essa foi a tônica das poucas defesas que a emissora expressou.

Alexandre Jubert, que administra o Sistema de Comunicação, ressaltou que “A ação é uma forma de intimidar a imprensa. Outros canais já mostraram imagens bem piores”. Contudo, cabe destacar que o que Jubert tem defendido não pode ser classificado como liberdade de imprensa. O nome é outro e bem diferente: liberdade de empresa.

Para abafar o ocorrido, muito tem sido feito. O programa não abandonou a abordagem sanguinolenta e sádica, mas passou a investir ainda mais pesado no carisma do apresentador para abafar a repercussão, taxando o processo como perseguição, como incômodo com a grande audiência e até como confusão mental da justiça. Samuka destacou, e Jubert também, que a realidade é aquela e que a justiça não pode confundir os produtores da violência.

Deixando o foco do comportamento da empresa de lado, esta reflexão pretende mesmo ressaltar a violência da abordagem que diariamente o programa tem promovido contra centenas de vítimas – criminosas ou não. O que afirmou o procurador da República Duciran Farena na ação é importantíssimo para embasar nosso argumento: “A infelicidade de um crime não torna o corpo da vítima objeto do domínio público para que os réus dele possam servir-se com fins lucrativos”. Neste caso, cabe destacar que o cuidado com o corpo da vítima depende do nível econômico em que ela se encaixe. A maioria das vítimas que tem suas imagens exploradas no programa são pobres e negros e são muitos os impedimentos para que os familiares possam cobrar dignidade no tratamento das fatalidades nas quais estas vítimas foram envolvidas.

O apelo da abordagem “espreme que sai sangue” não é resultado da falta de bom senso somente. Como afirma Maria Rita Kehl (2004, p. 157), “A lógica da difusão da imagem espetacular é a mesma da expansão do capital”. Há uma estrutura econômica (financeiramente falando, mas também simbolicamente) por traz de tudo isso, fundamentada inclusive em uma perspectiva torta do que é está bem informado e de qual é o papel do comunicador. Por isso, o procurador estendeu seu apelo à União e também aos Patrocinadores do programa.

É preciso, urgentemente, investir em outra mentalidade daqueles que consomem e produzem a mídia. Mesmo tendo cometido um crime horrendo, o programa desenha sua imagem como a de um Herói e não são poucos os que o observam assim. Basta uma breve olhadinha nas campanhas de popularidade que a emissora tem investido como aquela do “Eu faço parte deste sucesso!” e a própria Caravana da Verdade que além de uma feira de serviços é uma nada sutil campanha de ascensão política de Samuka Duarte, para constatar o que estamos falando.

Misturado com o entretenimento e perseguindo incessantemente o lucro, o jornalismo policial, e qualquer outra editoria, não consegue respeitar determinados limites. A atividade jornalística perde o sentido quando mergulhada em contexto como o vivenciado por parte das emissoras da Paraíba. Das cinco emissoras de televisão abertas, quatro investem neste conteúdo como instrumento de conquista da audiência.
Atualmente, está cada vez mais claro o embaralhamento sistêmico entre o jornalismo e o entretenimento, que a TV Correio tem promovido, principalmente no programa Correio Verdade. E, estão mais claros também, a priorização dos interesses privados do Sistema de Comunicação em detrimento dos interesses possivelmente públicos que uma detentora de uma concessão pública deveria defender. Neste caso, estamos falando não só da busca pela audiência, mas da campanha política que se aproxima.

Samuka pode ser candidato na cidade de Santa Rita e o principal repórter, Emerson Machado, filiou-se ao PPS e promete candidatura à câmara municipal de João Pessoa. Há um tempo atrás, foi Jota Júnior o candidato à prefeitura de Bayeux. Naquele contexto pelo PMDB, que era o partido que a emissora defendia com unhas e dentes. Agora, depois de uma guinada política, as candidaturas de seus célebres funcionários acompanham suas predileções políticas, o que nos leva a concluir que há um engajamento da emissora no sentido de investir politicamente neste tipo de ascensão pública.

O caso da exibição de um estupro de uma adolescente ao vivo é mais uma prova de que é preciso urgentemente regulamentar o setor e impedir que estes “excessos” – absurdos, seria a palavra mais adequada - aconteçam. O monitoramento precisa ser feito antes e continuamente e não resultar de pedidos da justiça em casos específicos. E isto está longe de ser um “atentado à liberdade de imprensa”. O site da tv correio, por exemplo, está em manutenção desde o ocorrido, não há como apresentar provas contra eles se não tiverem sido feitas gravações do programa do dia 30 (o que é pouco provável), mas em outros casos já aconteceu de não se ter acesso ao conteúdo exibido na integra para compor processos ou mesmo promover debates.

O respeito à dignidade humana não pode ser dispensado a favor da dimensão do consumo e da procura pelo furo de reportagem. É preciso interferir neste processo. É neste sentido, que não podemos permitir que a ação seja esquecida e desmoralizada. Outras instituições também precisam agir. A universidade precisa investir em pesquisa nesta área, fortalecer-se como espaço de reflexão e crítica a este processo. A tolerância à este perfil de jornalismo precisa ser minada, tarefa para qualquer cidadão.

Entenda a ação

Para quem ainda não sabe, ação foi consequência da exibição de cenas do estupro de uma adolescente de 13 anos, no Programa Correio Verdade do dia 30 de setembro. A violência foi filmada pelo parceiro, também menor de idade, do estuprador, de 20 anos.
Usada como isca para segurar a audiência, a exibição das cenas da barbárie resultaram em uma ação que pede a aplicação de uma multa de 5 milhões de reais na empresa e também indenização de 500 mil reais para a vítima, que foi exposta a uma audiência que beira os 60% dos televisores do Estado no horário. O magistrado que assina a ação pediu a União o monitoramento e a cassação dos sinais da TV Correio, que opera uma concessão pública de radiodifusão, e consequentemente está submetida à ainda fraca legislação do setor.

Janaine Aires é Jornalista e membro do Observatório da Mídia Paraibana e do Coletivo COMjunto de Comunicadores Sociais.

Janaine Aires / Autor

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