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Estupro na TV: liberdade de expressão ou sarcasmo midiático?

Janaine Aires

Texto de Henrique França

@RiqueFranca
http://riquefranca.wordpress.com/

A notícia estendeu-se por todo o dia, como se os veículos de comunicação tivessem uma espécie de “troféu” nas mãos. O que se viu, porém, foi uma confusão entre liberdade de expressão e sadismo midiático. Em praticamente todos os telejornais e em alguns portais de notícia da Paraíba um vídeo contendo cenas do estupro de uma adolescente de 13 anos foi reprisado, acessado e usado como isca de audiência. Provavelmente deu certo. Mas, a questão é: que preço estamos pagando por descer a tão baixo nível a noção de bom senso que comunicadores, jornalistas, empresários da comunicação deveriam ter?

Dia desses, um vídeo também postado em portal de notícias paraibano mostrava uma mulher sendo espancada por vários homens, um deles com uma panela cheia de água quente tentava queimá-la. Imagem distorcida, claro, para “respeitar” a audiência e preservar os envolvidos. Há tempos a imprensa tem feito papel de polícia, não apenas na investigação de fatos – solo onde tem colhido alguns bons frutos – como na divulgação de material de prova investigativa – e aqui assume um papel perigoso, de juíza do que deve ou não ser visto, independente do conteúdo.

Vale lembrar que veículos de comunicação como emissoras de TV e rádio são concessões públicas – repetindo, públicas! – e deveriam zelar ou minimamente respeitar o sentido desse termo. Além de ganharem permissão para veicular conteúdo midiático, essas empresas trazem em seus contratos com a legislação uma responsabilidade que lhes deve ser cobrada. Dia desses, o Ministério Público da Paraíba determinou que alguns programas, especialmente de TV, se adequassem aos critérios básicos da ética e do respeito à audiência. Ao que parece, nada mudou.


Parece mesmo que chegamos ao fundo do poço. Pior: ainda não. Se na guerra pela audiência vale tudo, não há limites para a exposição de pais de meninas estupradas, de corpos com balas na cabeça, de traficantes dando banho de água fervente em mulheres, em crianças sendo surradas, tiroteios. Sim, todas essas “notícias” contribuíram, e muito, para o aquecimento da audiência na mídia paraibana (e na brasileira, que não anda lá muito diferente).

Evidentemente, os “donos” da verdade da TV, do rádio, dos veículos de comunicação em geral lançam mão da premissa “se não gosta, não assista”. Argumento simples e pobre, assim. Algumas questões se colocam: televisão não é canal de estímulo dos sadismos pessoais de ninguém, sua transmissão é concedida pelo poder público, e ninguém pode exigir, por exemplo, que um desses aparelhos seja desligado – não raro em pleno horário das refeições – de uma loja, um consultório, um restaurante que sem o mínimo bom senso sintoniza tais distorções do que ainda se chama jornalismo.

A polêmica do vídeo foi parar nas redes sociais. Criticados pela atitude, alguns veículos retrocederam e retiraram o conteúdo de seus sites. Outros, porém, não apenas o mantiveram como levantaram bandeiras do tipo “contra censura da imprensa”. O argumento é no mínimo ridículo. Em geral, todos somos contra qualquer tipo de censura, mas isso não significa engolir em silêncio a total falta de respeito, de bom senso, de postura ética de quem se coloca como profissional da imprensa. Pessoas sem instrução, sem o mínimo preparo, sem qualquer compromisso com o seu interlocutor, inconseqüentes é que vão até o fundo do poço para sugar a última gota de audiência. Profissional, não.

Ao que parece, contudo, as imagens andam tão embaçadas nas cenas “fortes” anunciadas por apresentadores quanto em suas próprias óticas, como cidadãos. Então, cabe perguntar: se a mídia local é composta por profissionais, o que está havendo? Se os comunicadores entendem o valor da informação (atenção: valor é diferente de preço!), por que ainda mantemos conteúdos que agridem, que navegam no sadismo, no destempero humano? Enfim, talvez a turma da “liberdade de expressão” tenha razão: se o Ministério Público não conseguiu, se os profissionais da informação parecem não garantem frear o absurdo que nos é empurrado goela abaixo, o melhor a fazer é desligar a TV, mudar a sintonia do rádio, voltar-se para o que realmente constrói. Até que a visão dessas pessoas se torne límpida como toda imagem que se preze. Isso, sim, seria uma boa notícia.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 1º de outubro de 2011]

Janaine Aires / Autor

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