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Regulação da mídia e os problemas de leitura

Maria Silva
Há um sério problema de leitura entre os brasileiros. Alguém pode logo pensar que me refiro ao fato do brasileiro ler pouco, mas não é isso. É um problema de interpretação mesmo: brasileiro lê errado. Não estou dizendo com isso que eu sou quem decide qual a leitura válida e qual a leitura errada. Não é isso. É um problema de perceber que em determinado momento, um livro ou um texto não diz aquilo (às vezes dizem ao contrário do que foi interpretado), mas que por alguma razão, que pra mim é desconhecida, alguém conseguiu ler aquilo lá. O assunto sobre a regulação da mídia é um ótimo exemplo para ilustrar algumas interpretações equivocadas.

Primeiro é óbvia a diferença entre regular e censurar: regular quer dizer agir segundo as regras, as leis. Basta pegar qualquer dicionário a fim de entender isso. Na prática, significa que um conjunto de normas e/ou critérios seriam instituído e seguidos pelos meios de comunicação. Significa o reconhecimento de que a mídia não é um campo aberto, um vale-tudo, um pode-qualquer-coisa. Há limites. Se alguém acha que estou errado, então deve achar a coisa mais normal do mundo o que aconteceu recentemente aqui na Paraíba: a TV Correio exibiu, no último dia 30/9, cenas de estupro de uma criança e foi processada pelo Ministério Público da Paraíba. Quem acha que direito à informação é sinônimo de sensacionalismo desenfreado em busca de lucro, precisa rever os conceitos.

Direitos e deveres

Já censurar é proibir e ponto. Proibir que falem mal do presidente, que falem mal do prefeito, que se mostre a corrupção, que se mostrem as falcatruas do ministro. Quando se fala em regulação da mídia, não é a censura que é proposta – apesar de muita gente ler assim. Existe uma diferença gritante entre estabelecer normas a fim de que a mídia tenha um mínimo de respeito à dignidade humana e proibi-la de investigar casos de corrupção. Essas duas coisas não são a mesma coisa, mas quando se fala em regulação teimam em colocar tudo no mesmo saco como se fossem.

Se é verdade que em maio e junho a imprensa esbravejou porque interpretou erroneamente que o livro didático Por uma vida melhor estaria dizendo que as pessoas devem falar errado (interpretaram pode como deve), é também verdade que quem leu dessa forma é porque não sabe ler. Ou por achar que ler é apenas decodificar letras; não sabe interpretar um texto. Quem lê regular como censurar deveria voltar à escola. Ou, pelo menos, investir mais em algum curso de interpretação de texto.

Além disso, os jornalistas aqui no Brasil têm sua liberdade de expressão assegurada a pelo menos uns 25 anos pela Constituição Federal. Mas às vezes a imprensa esbraveja como se tivesse no tempo da ditadura. Como afirma Dominique Wolton, é como se a liberdade de expressão ainda não tivesse sido conquistada. Algumas revistas semanais pensam sobre a questão da liberdade de expressão com os olhos de ontem. Os jornalistas parecem não perceber que o problema do século 21 (pelo menos aqui no Brasil) não é mais a falta de liberdade, mas o que fazer com ela. “Fala de seus direitos para não ter que falar dos seus deveres; olha para si no retrovisor do passado para não refletir nas obrigações ligadas à sua vitória”, diz Wolton.

Lógica econômica

Os jornalistas ainda pensam que são o Clark Kentda sociedade moderna, os heróis templários em defesa da democracia contra os vilões políticos. Não nego que a liberdade de imprensa e o exercício do jornalismo são essenciais para qualquer democracia sadia. Não é isso (seria uma leitura errada esse tipo de interpretação). Mas é reconhecer que o que é notícia é uma informação transformada em mercadoria, sendo ela submetida a normas de generalização, padronização, simplificação e interesse tanto do jornalista quanto da empresa ou organização política que está por trás do veículo. As empresas apenas mascaram o assunto como algo de interesse público a fim de ganhar ares de uma objetividade impossível.

Na prática, um dos vícios do jornalista é que suas matérias são exatamente aquilo que ele quer ver, ou que o dono da empresa quer utilizar no jogo político ou econômico. Afinal, a “censura” vinda de uma regulação seria mais imoral do que a que é praticada pelos donos de TVs, rádios, revistas e jornais? Acho que não.

A Rede Globo vem ilustrando bem isso. Seus “Princípios Editoriais” afirmam que “não pode haver assuntos tabus. Tudo que for de interesse público, tudo aquilo que for notícia deve ser analisado, publicado, discutido”. Na prática, a cobertura que a própria TV Globo e o SporTV vêm dando aos jogos Pan Americanos de Guadalajara demonstra a diferença entre o que está na teoria e o que é aplicado na prática, entre o dito e o feito, como chamou a atenção o professor Rogério Christofoletti neste Observatório (ver “O Pan olimpicamente ignorado”). Um exemplo de que o jornalismo não está tanto a serviço do povo, mas a serviço de uma lógica econômica por trás dos veículos. E que por mais que essa lógica peça o vale-tudo, não se pode permitir – até mesmo para o bom andamento de uma democracia forte.


Bruno Ribeiro Nascimento é graduado em Comunicação Social, com habilitação em Radialismo, pela UFPB.

Maria Silva / Autor

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