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Debatendo a mídia paraibana - Lições que os Diários Associados deixaram ao jornalismo paraibano

Janaine Aires

Janaine Aires

O fechamento do Jornal O Norte, com mais de 103 anos de atuação, e do Diário da Borborema, que tinha 55 anos no mercado, nos leva a resgatar uma série de pontos importantes para refletir sobre a saúde da nossa mídia. Entre tantos aspectos que precisam ser abordados para compreender a complexidade do processo lento de fechamento do jornal, a precarização do trabalho do jornalista talvez se constitua como a principal questão a ser enfrentada e permanentemente discutida.

É a principal lição a se tirar do fim de uma história tão longa e importante no registro da história da Paraíba.

Outras questões como a necessidade de formar administradores para o mercado jornalístico e conectá-los com a produção simbólica dos veículos e a necessidade urgente de um mecanismo de registro e criação de acervo da nossa produção midiática capaz de compreendê-la como tessitura da nossa história e como bem público, também podem colaborar para enfrentar esse acontecimento como um processo longo e repleto de nuances e não como um fechamento súbito de veículos que fizeram história e escola no estado.

Os rumores de falência e fechamento já rondavam a redação há anos. Meses antes, veículos de circulação nacional, a exemplo da Revista Época, já apontavam o futuro encerramento das atividades de periódicos nordestinos ligados aos Diários Associados. Entretanto, o modo assombroso como as atividades foram encerradas acende o alerta para a necessidade de discutir, de modo compartilhado, o modelo empresarial adotado na administração das empresas jornalísticas da Paraíba.

As precárias condições de trabalho dos jornalistas não são e nem eram exclusividade das redações de O Norte e do Diário da Borborema, que dia-a-dia tinham de matar leões para garantir que suas edições chegassem às bancas e nas casas dos poucos assinantes. Muitas são as redações em que faltam equipamentos e veículos para o transporte das equipes; em que se atinge o limite de ligações para celular antes do fim do mês; em que o pagamento correto de horas extras nem sempre é uma realidade; entre tantas outras dificuldades compartilhadas que poderíamos citar.

É necessário destacar (e apresentar um pouquinho de preocupação) que, no entanto, o convívio com essas situações já é parte do cotidiano do jornalista e, podemos dizer até, que já é parte da sua maneira de ver o mundo, da sua identidade. Abraça-se a atividade jornalística como uma missão a ser cumprida mesmo diante das mais intransponíveis barreiras. Muito embora, seja importante para qualquer profissão guiar-se por valores de busca da verdade, de amor à profissão, de devoção ao interesse público, na prática, essa concepção de mundo, para qual deve-se produzir custe o que custar, pode mascarar as precariedades, as pressões, as amarras que vão se constituindo na execução das suas funções e alienar as condições de produção e o trabalho.

Reclamações sobre condições de trabalho ruins são classificadas como declarações de desamor à profissão.

Dessa forma, nunca conseguiremos mudar a realidade da profissão e ampliar o mercado garantindo as conquistas da categoria. Por isso, nunca é demais enfatizar a fundamental urgência no fortalecimento das nossas entidades de luta e da regulamentação para o setor.

O fechamento de empresas de comunicação implica prejuízos para nossa memória social tão preocupante quanto os desafios que o mercado terá para absorver a mão-de-obra dispensada. Teremos acesso aos 103 anos de registros das nossas memórias mediadas por esses veículos? Como vamos refletir sobre o mundo que foi performado diariamente naquelas páginas? Restam apenas três jornais impressos no estado (Jornal da Paraíba, Correio da Paraíba e Contraponto, que é um semanário).

Era evidente o sucateamento progressivo de ambos os jornais, a falta de equipamentos e softwares adequados e atualizados e o sucateamento dos veículos de locomoção da equipe, que aponta-lo como um veículo deficitário nem chegava a ter valor jornalístico, todos sabiam que o fim estava próximo. Agora, outro ponto a enfatizar é que, embora a direção dos diários tenha apontado somente os veículos impressos como os deficitários, basta uma breve passadinha de olhos e ouvidos na Tv e rádio Clube para perceber que o sucateamento destes veículos já esborra os limites de seus espaços de produção e começa a incomodar espectadores e anunciantes. Não é difícil constatar que o sinal de transmissão é péssimo e que a sua produção jornalística está cada dia mais restrita e distante dos meios digitais.

Janaine Aires é jornalista e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ. Membro do Coletivo COMjunto de Comunicadores Sociais e do Observatório da Mídia Paraibana.

Janaine Aires / Autor

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