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(Entre)vistas - Sandra Azevedo

Janaine Aires

Violência contra mulheres

“O movimento organizado de mulheres é um agente relevante quando a Agenda Midiática pauta os crimes contra mulheres”, afirma a professora Sandra Azevêdo

Um recente caso de violência contra mulheres que aconteceu na cidade de Queimadas, localizada na Região Metropolitana de Campina Grande-PB, acende o alerta para a necessidade de discussão pública sobre a violência contra mulheres no estado. Problematizar a violência de gênero e por em debate o padrão cultural de matar mulheres é uma tarefa de toda a sociedade.

O livro “Mulheres em Pauta: gênero e violência na agenda midiática” apresenta os resultados de uma pesquisa de três anos, que buscou refletir sobre a produção da mídia paraibana na cobertura de casos de violência contra mulheres. Sandra Raquew Azevêdo analisou sociologicamente a produção de notícias e seus reflexos na construção de representações sociais, especialmente no que se refere às mediações de gênero.

Como objetos de estudo, Sandra Azevêdo adotou dois episódios de grande repercussão de violência contra mulheres: o Caso Cris e o Caso Márcia. A pesquisa também analisou a cobertura da mídia na implantação do Programa de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual em João Pessoa. A pesquisa permitiu traçar uma cartografia do fluxo de agendamento destes acontecimentos nos veículos de comunicação do estado e reflete sobre a importância das práticas de agendamento promovidas pelas instituições feministas locais.

Observatório: No livro “Mulheres em pauta: gênero e violência midiática”, você aborda dois casos de grande repercussão de violência contra a mulher ocorridos nos anos 1990 e o processo de implantação do PAMVVS – Programa de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Sexual, que recebeu a alcunha de “Central de Aborto” por parte da mídia. No mesmo período histórico, outros casos de violência contra mulheres aconteceram e não ganharam a mesma repercussão. Ao escolher esses como objeto de pesquisa, que perguntas você quis responder?


Sandra Azevêdo:
Um dos principais focos da pesquisa foi discutir a mediação do gênero no conteúdo das notícias. A importância da significação social da violência contra mulheres na esfera midiática e a ação da sociedade civil organizada tanto em influir sobre essa Agenda, tanto quanto por desnaturalizar os homicídios femininos.


Observatório: A notícia é produto de um processo complexo que articula vários atores e uma série de interesses. Levando em consideração que ambos os casos direta ou indiretamente envolveram políticos influentes na Paraíba, é possível apontar este fato como critério para que os veículos de comunicação os tenha mantido em evidência?


Sandra Azevêdo:
Não apenas isso. A questão do status social de vítimas e agressores repercute sim quanto à notoriedade dos fatos, mas há outras dinâmicas também presentes na produção social das notícias. E podemos tomar com exemplo a participação de segmentos sociais na produção de conteúdo e enquadramentos sobre um fato, há interpretações em disputa, em evidência. O movimento organizado de mulheres é um agente relevante quando a Agenda Midiática pauta os crimes contra mulheres.


Observatório: No livro, você adotou uma citação de Bagdikian (1973) que aponta a notícia como o sistema nervoso periférico do organismo político e como mecanismo para que os homens percebam o mundo e a si mesmos. Apoiando-se no resultado que a pesquisa nos apresenta, como os movimentos sociais, as entidades civis organizadas e mesmo o cidadão comum podem ampliar suas práticas de agendamento midiático?


Sandra Azevêdo:
Considero que um dos aspectos cruciais para as organizações sociais e os cidadãos intervirem no agendamento midiático é o entendimento que a informação é um direito humano, que os meios de comunicação são regulamentados pelo Estado, tem que se compreender o caráter de bem público da comunicação. Outro elemento importante é a capacitação, compreende as rotinas jornalísticas, das redes sociais, da produção social da notícia para intervir com qualidade.


Observatório: O que é a violência de gênero?

Sandra Azevêdo: Acredito que violência de gênero é um conceito mais complexo que diz respeito a toda e qualquer agressão, inclusive a violência simbólica que envolve a identidade de um sujeito no tocante ao gênero.


Observatório: As vítimas dos casos analisados atravessaram, em alguns momentos, ataques a sua imagem. É comum visualizar diariamente um tipo de abordagem que culpa as mulheres pelos crimes que são cometidos contra elas. Elas são culpabilizadas pelo tamanho da sua roupa, pela hora que circulam nas ruas, pela profissão que exercem etc. A imprensa está preparada para tratar a violência de gênero?

Sandra Azevêdo: Considero que há retrocessos em determinados momentos da cobertura midiática em virtude de uma prática que é pior que o sensacionalismo. Mas existem avanços importantes que perpassam diferentes meios como o debate sobre a temática, a visibilidade e importância social do assunto. A pauta trazida pela sociedade enfrentando questões muitas vezes polêmicas, mas que precisam de abordagem pública. E especialmente a capacidade que as mídias possuem de influir sobre a agenda das políticas públicas.


Observatório: Através do Caso Márcia, e pelo envolvimento direto de um Parlamentar no assassinato da estudante cajazeirense, o movimento de mulheres e as particularidades do caso fizeram com que a pauta da violência contra a mulher estivesse em evidência não só nos veículos de comunicação e nas ruas, mas também no ambiente legislativo. Realidade que resultou numa apresentação positiva de projetos envolvendo a temática. Por outro lado, nos deparamos diariamente na Paraíba com um desserviço prestado aos avanços conquistados pelo movimento de mulheres. Neste caso falamos de um comunicador que emprega o apelido de Lei “Maria Rapariga”, para a lei Maria da Penha. Considerando estes extremos, qual o papel da imprensa no fomento às leis de combate à violência e o combate às opressões?

Sandra Azevêdo: A imprensa tem o poder de tornar público, visível, garantir o acesso às informações. Sofremos com problemas como mau uso, excesso, ausência e manipulação de informações, que comprometem o direito que às pessoas têm a uma comunicação de qualidade para o efetivo exercício da cidadania.

Sandra Raquew Azevedo é professora do Curso de Comunicação Social e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da UFCG. É jornalista e radialista, mestre em Educação e doutorado em Sociologia pela UFPB. Também é autora dos livros “Cartografias escritos sobre mídia, cultura e sociedade” (2008) e “Gênero, Rádio e Educomunicação: caminhos entrelaçados” (2005).

Leia:

“Mulheres em Pauta: gênero e violência na agenda midiática”

Sandra Raquew dos Santos Azevêdo

Editora UFPB

284p

Janaine Aires / Autor

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