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Imprensa: onde está o problema?

Janaine Aires

Henrique França

@RiqueFranca

http://riquefranca.wordpress.com/2012/02/08/imprensa-onde-esta-o-problema/

“O problema é a imprensa. Às vezes, tem que botar mordaça na boca de quem faz isso”. Pode até parecer, mas essa frase não foi dita por um militar do período ditatorial ou uma celebridade vítima de invasão de privacidade por paparazzi. Foi esbravejada por um servidor público federal integrante do seleto grupo de 464 funcionários detentores dos chamados “supersalários”, conforme auditoria do Tribunal de Contas da União, em 2009. O vencimento, de R$ 26,7 mil, apesar de pomposo, é inconstitucional e equivale ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal.

A frase dos tempos da Ditadura, até por uma questão de inteligência, tem sido pouco verbalizada – mas o mesmo não se pode dizer sobre os pensamentos que ocupam mentes dos denunciados pelo “problema” imprensa. Quem nunca assistiu ao noticiário com a falta de um posto policial prometido há anos e, ao final da edição, a nota de que o gestor denunciado garantira a instalação do serviço à comunidade? Ou como negar a eficiência de repórteres que chegam a conversar com bandidos, encarcerados ou livres, e deles tiram declarações que podem derrubar um diretor de presídio, um secretário, resolver uma investigação? Ou daqueles que revisam processos estagnados e parecem, com suas reportagens, apertar o acelerador da Justiça nacional? Ministros caídos, empresários falidos, ONGs denunciadas, pais agressores detidos, crianças violentadas atendidas. Não é raro que essas sentenças sejam baseadas na “faladeira” imprensa. É ou não é motivo para quem tem motivos reclamar, sugerir o “amordaçar”?

A questão é que a imprensa não é santa, não deve ser vista como fonte de verdade absoluta e tampouco salvadora social. A imprensa é necessária, mas, assim como qualquer entidade que tem reflexos diretos na sociedade, precisa ser necessariamente burilada. Um lapidar inerente, aliás, à própria sociedade. A proposta do crescimento coletivo, evidentemente, beira a utopia – mas seria totalmente surreal?

Problema, mesmo, é a falta de participação, de iniciativa, de envolvimento do cidadão com tudo o que lhe rodeia e interfere na sua rotina. A reportagem sobre lavagem de dinheiro pode até lavar a alma, mas não limpa a mancha da inércia social. Empresas que lucram acima da média no País onde milhares passam fome podem até ser criticadas pelo comentarista predileto, mas quando essa mesma empresa é foco da nossa avaliação, sem microfones e câmeras, nos calamos, como meros espectadores.

Experimente, por exemplo, acompanhar os comentários em uma fila de banco. Há leis que determinam o tempo máximo de permanência do cliente ali. O tempo passa, ultrapassa, maltrata quem espera já sem paciência. Quantos levam a reclamação para além do desabafo local? Há até aqueles que, mais modernosos, aproveitam para postar nas redes sociais o abuso. É a mobilização online sobrepondo o universo “in line”. Quantas queixas nos procons? Quantas pessoas recolhem o bilhete com o horário de chegada e, uma hora depois, exige o carimbo e a notificação do abuso no papel, como prova do desrespeito e do descumprimento à lei? Pouquíssimos. Um exemplo bobo. Mas, consulte os órgãos de defesa do consumidor e decepcione-se.

Contudo, quando a imprensa chega, denuncia, escancara, usa câmeras e aparato de investigador, lava a alma da sociedade – pelo menos quando as lentes não estão voltadas para as nossas faltas ou não ferem algo que nos interessa. Uma pena, porque a imprensa é instrumento, não fim. E uma imprensa forte se faz com uma sociedade forte, que cobra, reclama, opina e exige inclusive da própria mídia noticiosa. Porém, infelizmente, no máximo reclamamos mesmo é quando o sinal da TV sai do ar ou quando o exemplar do jornal não chega à nossa porta. E, muitas vezes, nem isso. Que nos digam os milhares que assistiram ao fechamento de um Jornal de 104 anos da poltrona, como se fosse o fim de uma novela das oito – só que piorado, sem final feliz.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 8 de fevereiro de 2012]

Janaine Aires / Autor

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