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“Calendário JPB”, a simulação da mobilização e o agendamento da cidadania

Janaine Aires

Por Janaine Aires

Na semana de aniversário de 426 anos da cidade de João Pessoa, a TV Cabo Branco, filiada à Rede Globo, estreiou o quadro “Calendário JPB”, exibido no JPB 1ª edição. A proposta do quadro é agenciar, através da pressão midiática, a solução de problemas sociais como buracos nas ruas, riachos poluídos, sinalização de avenidas, falta de iluminação e etc. O projeto também é desenvolvido em outras afiliadas da Rede.
Comandado pela jornalista Lívia Calmon, trazida da Globo São Paulo, o quadro se apresenta como uma ferramenta que vai permitir que os cidadãos reivindiquem seus direitos. A repórter acata e verifica a demanda sugerida pela população, encaminha aos poderes públicos e retorna à comunidade para verificar se os apelos foram atendidos. A edição do quadro é mais dinâmica, permite-se que a repórter adote uma postura mais carismática, com mais gestos, entonações e liberdade na linguagem. No plano nacional, projeto semelhante foi implementado pelo Programa CQC, da Band: o quadro Proteste Já!
            Na Paraíba, o Calendário JPB não é o único exemplo. Parte da nossa produção midiática assenta-se sobre esta perspectiva. Como os programas: De olho na cidade, apresentado por Jota Ferreira; a abordagem do Correio verdade e do projeto Caravana da Verdade; quadros como o Fala Comunidade, também do JPB; antigamente no programa Tony Show. Enfim, são muitos exemplos.
 Levando em consideração o contexto de midiatização da sociedade, que implica o atravessamento das lógicas midiáticas nos diversos campos sociais, a promoção deste agenciamento é preocupante, porém é compreensível. Afinal, falamos de uma sociedade agendada pelo capital. Não se trata de uma anomalia, um processo estranho.
O quadro citado é apenas um exemplo de um processo que tem faces na política, na educação, nas expressões da espiritualidade, nas relações internacionais e etc. Porém, à medida que a mídia atribui a si a tarefa de solucionar um problema específico da comunidade, sem problematizar o contexto socio-econômico que a circunda, ela não é capaz de desmascarar uma série de outros problemas que afligem à população.
Nesse contexto, a mídia pode ser considerada como a principal ferramenta de valorização, da promoção da não criticidade diante das condições sociais as quais estamos submetidos, do efeito que fragmenta as dificuldades das comunidades mais carentes e colabora para mascarar o quadro social complexo que os aflige e os faz acreditar que, sem a mídia, são ainda menos capazes de se unir para lutar por melhorias.
Outro aspecto a se pontuar é que, somado à promoção destes valores, está o processo de criminalização dos movimentos sociais. Valoriza-se a “terceirização” das manifestações sociais em torno de agentes como a mídia, como se demonstra no Calendário JPB, as ONG’s, as Igrejas e algumas empresas, e marginaliza-se ou subvaloriza-se manifestações que partam de movimentos sociais como o MST, o Movimento de Mulheres Feministas, de Negros, de Homossexuais, de Índios, entre outros.
Cada dia mais a cidadania é espremida entre os blocos de tv e reduzidas às feiras de serviços em que as emissoras, em parceira com seus patrocinadores, cortam cabelos, ensinam a escovar os dentes, prestam assessoria jurídica, aferem a pressão, distribuem camisetas e outros brindes. Qual o retorno que se espera dessas ações? A  possibilidade de enquadrar sorrisos e produzir imagens capazes de propiciar o maior número de identificações, para contrastar com as notícias ruins que cotidianamente se tem que veicular. E não só isso, uma das pretensões também é convencer que a mídia está prestando serviço que o Estado não é capaz de cumprir.  

Liderança da repórter

            Muito embora acredite que o CQC não tenha sido a grande inspiração, o Calendário JPB abandona o tom jocoso dos repórteres de ternos pretos e óculos escuros, mas adota a mesma proposta. Só que no caso paraibano, muito mais do que um humorista que se vai fantasiar e pressionar as autoridades para que as demandas sejam atendidas, a repórter se revestirá de uma outra roupagem: a de líder.   
É ela que vai verificar as demandas, observar se as denúncias da população fazem sentido, é ela quem encaminha os documentos cobrando soluções às autoridades compententes, é ela quem retorna à comunidade para lamentar ou comemorar as soluções dos fatos. Como você pode assistir aqui.
Atribuindo tanta importância à liderança da repórter, de certo modo, a emissora reafirma a insignificância pública dos homens perante às autoridades, supervaloriza o poder de constragimento da mídia com relação aos poderes públicos. Ao mesmo tempo em que, abrindo os microfones, essa insignificância “é compensada pelo mecanismo de identificação com a imagem de um líder, uma figura de projeção que represente ao mesmo tempo encarnação dos ideiais e ideal de visibilidade” (pág 153, BUCCI & KEHL, 2004), a emissora embrulha-se no papel de responsabilidade social, e numa sacada de mestre, faz o seu marketing.
Por outro lado, a interação proposta pelo quadro foi bem acolhida pelo público e traz benefícios para a população. Não custa lembrar as inúmeras tentativas da emissora de popularizar seus produtos como a série de reportagens que acompanhou um show da banda Aviões do Forró ou mesmo os quadros que mostravam fotos dos animais de estimação dos telespectadores antes dos intervalos comerciais.
Nesse caso nos esforçaremos para não personalizar a crítica em torno da figura da repórter, compreendendo que o discurso dela é o discurso da emissora que a remunera e que ela faz parte de um projeto jornalístico articulado sobre outras iniciativas. Porém, talvez seja este o ponto que melhor ilustre o que denominamos de mobilização pela margem, presente neste caso não só na fala da repórter, mas no imaginário, promovido pela mídia, que legitima ONG’s e mesmo ações como #DiadoObrigado, o Criança Esperança, o Mc dia feliz, como os modelos de mobilização social adequados. Afinal, não causam congestionamentos no trânsito, não ocupam prédios públicos, nem terras improdutivas, não fazem barulhos em pronunciamentos públicos e nem precisam de Sprays de pimenta para serem contidos. Não apresentam incomodos ao modo de produção capitalista e nem preocupam politicamente.

Mobilização pela margem

A análise do quadro “Calendário JPB” nos permite afimar que a mídia é uma importante ferramenta na promoção desse modelo de mobilização social pelas margens: não estimula o esforço para o controle dos meios básicos de produção e de riqueza, não estimula questionamentos sobre as condições estruturais que moldam a vida quotidiana das pessoas. Mobiliza somente para tapar os buracos da rua, trocar a lâmpada queimada no poste da esquina, ajeitar o esgoto estourado, abraçar fraternalmente quem lhe estende a mão ou distribuir bonecas e carrinhos para crianças carentes. Não se trata de defender que isso não aconteça, mas observar que a mobilização que se dá em torno dessa “solucionática” não é capaz de romper com as estruturas que a geram.
 Este tipo de atividade da mídia nunca irá além das pequenas áreas da vida social e das condições permitidas pelo Estado neoliberal. É necessário romper com educação que articula esse processo, se ainda há o desejo de promover algum tipo de transformação. O imaginário que está atrás de tudo isso criará somente uma “almofada social” para abafar as questões potencialmente conflitantes.
A capacidade de produzir a nossa história reside na possibilidade de nos movimentar e de nos organizar, se tercerizamos isto, entregamos-na a outros. As obras sociais agenciadas pela mídia, muito embora sanem parte das necessidades manifestadas e atendam à uma demanda social que é legítima, estão diretamente articuladas com a sua auto-promoção, são momumentos de marketing. Assim como são muitas obras que modificam a paisagem das cidades brasileiras, muitas vezes menores que as grandes placas que as anunciam.  O seu impacto midiático é mais importante do que o papel que ela representa na história da comunidade que atende.
 As empresas de comunicação adotaram a linguagem da responsabilidade social, que já dominou as estratégias de marketing das empresas de comésticos e os supermercados. Essa linguagem que é a tônica da maioria dos empreendimentos empresarias que se criam na atualidade. Podemos citar como um exemplo paraibano a empresa “Tks’s t-shirts&happiness”, que articula os #Dia(s)doObrigado, que citamos anteriormente. A empresa vende camisas personalizadas com mensagens de gratidão. Para cada camisa vendida, outra será doada à uma criança carente através de uma feira de serviços promovida nas áreas de risco onde elas moram. Como o próprio nome da empresa surgere, em inglês, vendem-se camisas e felicidade. A data criada pelas redes sociais busca estimular o agradecimento como forma de tornar as pessoas mais felizes.
A cidadania que é circunscrita no Calendário JPB, e em outros exemplos que citamos, está no agora ou talvez no agendamento para tal dia. Podemos pensar este ponto partindo da análise que Roland Barthes faz em Mitologias, pois essa cidadania é colocada como mito. A fala é mitificada ao passo que é deformada e esvaziada da história e da vivência da comunidade e,  assim como um bom mito, tem o objetivo de não escapa da legitimação das relações sociais vigentes.
Permite-se, portanto, a fala das pessoas da comunidade, no entanto, retiram-na o seu lugar de protagonismo e de atividade que representa a voz das pessoas que ali moram. Este tipo de abordagem midiática traz para o cenário do nosso cotidiano as “vozes silenciadas” tão requeridas nos telejornais, mas de maneira deformada. A comunidade é representada pelo pensamento e visão dos interesses midiáticos, e as reivindicações incapazes de gerar uma ilustração visual compatível com a linguagem do telejornal perdem o seu lugar no espaço público.
A análise que se pretendeu suscitar nestas linhas busca refletir sobre um tipo de mobilização social atravessada pela lógica midiática que, de certo modo, vem construindo um novo paradigma de mediação jornalística e acima de tudo apresentando-se como a “mobilização social legitima”. Cabe destacar que o debate sugerido não é capaz de ser esgotado com a observação que promovemos, talvez nem mesmo se lhe dedicassemos uma tese de doutoramento.
As críticas apontadas não propõem o descarte desta prática jornalística ou mesmo dos outros exemplos que citamos, nem muito menos quer classificá-los como irrelevantes. Contudo, refletimos sobre ela com o intuito de propor um compromisso social mais radical: onde se mergulhe e se empenhe em discutir as máquinas que produzem as ruas esburacadas, as montanhas de lixos nos bairros mais pobres, o modelo de mobilidade da cidade, a precariedade das escolas públicas e o trabalho infantil, por exemplo. É fundamental que estimulemos abordagens jornalísticas capazes de promover a consciência, a contextualização dos fatos, o acompanhamento dos processos, o retorno às comunidades e uma relação mais próxima com o público.

BUCCI, E. & KEHL, M. Videologias: ensaios sobre televisão. São Paulo: Boitempo, 2004.

[Janaine Aires é jornalista, mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro do Coletivo COMjunto de Comunicadores Sociais e do Observatório da Mídia Paraibana]

Janaine Aires / Autor

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