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Resenhando - Antropológica do Espelho, de Muniz Sodré

Janaine Aires

           Antropológica do Espelho – uma teoria da comunicação Linear e em Rede, de Muniz Sodré
Janaine S.  Freires Aires

Antropológica do Espelho é um livro básico para compreender os fenômenos da comunicação na contemporaneidade. Através dele, Muniz Sodré nos ajuda a refletir sobre as transformações de interesses e costumes gerados a partir do contexto de midiatização da sociedade.
O livro se debruça sobre o processo, no qual as relações sociais são articuladas sob novas formas de saber e sentir. A mídia passa a implicar em uma nova qualificação da vida, em um novo bios, o bios midiático, e em um novo ethos, o ethos midiatizado. O ethos é uma consciência atuante e objetiva, na qual se manifesta a compreensão, a intepretação simbólica e a regulação da existência humana, dinamizada em um ambiente cognitivo.
 A globalização que, para ele, só tem de global mesmo a velocidade de deslocamentos de capital e de informações, pode ser considerada como um outro nome para a “teledistribuição” mundial de pessoas e coisas. E a comunicação, que representava vínculo, neste novo contexto, passa a designar a aceleração do processo de circulação de informação. Processo que implica, portanto, em um novo tipo de formalização da vida, em novos protocolos de sentido, percepção, saber e contabilização da realidade. O conhecimento ingressa e novo registro, no qual velhas e novas formas de representação interagem em um mesmo ambiente.
Contudo, Sodré pontua que, muito embora introduzam novas variáveis técnicas, econômicas e políticas, as transformações tecnológicas da informação apresentam-se francamente conservadoras das velhas estruturas de poder. Segundo ele, a democratização não seria alcançada pela multiplicação técnica de canais. Dessa maneira, o termo mais adequado para descrever o momento não seria “Revolução Tecnológica” e sim, “Mutação Tecnológica”. Afinal, trata-se da hibridização e rotinização de processos e recursos técnicos já existentes de outras formas e da veloz reciclagem de conteúdos. Vale salientar, que tal reordenamento de conteúdos é naturalmente coerente com os códigos de circulação de mercadorias.
O contexto de midiatização da sociedade sugere uma qualificação particular da vida, um novo modo de se fazer sentir, um bios especifíco. Aristóteles, em Ética a Nicômaco, distingue três âmbitos nos quais se desenrolam as ações humanas: o bios theoretikos – a vida contemplativa; o bios politikos – vida política; e o bios apolaustikos – a vida prazerosa. Sodré acrescenta mais um gênero de existência: o bios midiático.
Essa mutação tecnológica implica na transformação das referências simbólicas que formam a consciência, na héxis (que significa modos de agir) educativa. Educar é, antes de tudo, comunicar, o que significa que é a tentativa de implementação de laços através de um quadro compartilhado de referências. A educação é processo e é por meio dela que podemos mensurar o nível de resistência social às lógicas da indiferença impostas pelo mercado. As tecnologias da comunicação são importantes filtros na incorporação do que é relevante e na eliminação do que é irrelevante diante do novo ordenamento do mundo.
Em uma sociedade midiatizada, a tecnologia participa ativamente no processo de conhecimento. Contudo, para Sodré, o fascínio exagerado centralizado na atividade midiática e nas proezas da computação decorre da prática ideológica que dedica à inovação em si mesma um poder mágico e soberano de solucionar problemas, idependente das condições humanas e sociais. 
Em uma cultura cibernética, as tecnologias concorrem para a produção de um outro mundo, de um virtus. A consciência é identidade e tem localização arbitrária. Não é apenas um tecido cerebral. É uma operação de analogias. Neste novo virtus, a cultura pode ser compreendida como um modo de relação com o real, capaz de ser visualizada em uma variedade de repertórios circulantes na vida social. A realidade virtual funcionará como uma metaforização tecnológica, que precisa ser compreendida como decorrência do trabalho humano. Por isso, a realidade virtual responde às nossas limitações e interage com as nossas relações econômicas e políticas.
Sodré defende que a Mídia é a concretização tecnológica de uma moralidade vetorizada pelo mercado, na qual a hipertecnologização tenderá a recursar lugares, deslocando e esvaziando-os de seu sentido comunitário. A comunicação cobrirá um amplo espectro de práticas de veiculação - o que Sodré chamou de midiatização e cujos dispositivos têm natureza basicamente societal;  de vinculação – pautada em formas diversas de reciprocidade comunicacional entre os indivíduos, de natureza sociável; de cognição – que correspondem a práticas teóricas relativas à posição de observação e sistematização das práticas de veiculação e as estratégias de vinculação.
Em Antropológica do Espelho, Muniz Sodré destaca que o campo comunicacional requer um novo sistema de inteligibilidade para a compreensão da diversidade dos fenômenos comunicacionais e lamenta o fato de que a mão-de-obra técnica do bios midiático costume desprezar a teoria. O estudo do fenômeno deve pautar-se em um empenho ético-político-antropológico capaz de viabilizar a compreensão das mutações socioculturais dentro de um horizonte de autoquestionamento. 

Janaine Aires / Autor

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