Assine nossa Mala Direta

Inscreva seu Email

#ForaEmerson e seus bons sinais

Janaine Aires

Na semana passada, as declarações do repórter Emerson Machado, do Sistema Correio de Comunicação, causaram polêmica. O repórter declarou que lamentava viver em um país que chora a morte de um drogado, referindo-se ao pesar de inúmeros brasileiros diante da morte do vocalista da banda Charlie Brown Jr, Chorão, ocorrida no dia 6 de março de 2013.
A polêmica que o comentário gerou traz consigo um sinal de incômodo diante do tipo de abordagem que tem se consolidado como programação jornalística voltada para às classes C, D e E. Um incômodo interessante, já que demonstra a diminuição da tolerância diante dos abusos do jornalismo policial praticado na Paraíba. É um sinal de que cresce a consciência da responsabilidade que os meios de comunicação devem ter e sobre o papel social da mídia, embora ainda seja difícil sonhar com uma diminuição da audiência de programas do gênero.
 Manifestada no seu próprio twitter, em poucas horas, a opinião dividiu os internautas e gerou uma série de protestos contra a abordagem. Incrédulo com a reação de tristeza de fãs de Chorão, Machado disparou “nunca imaginei que no Brasil um homem que morre cheirando cocaína tivesse tanto valor”. Em protesto, milhares exemplares da imagem de Emerson com um imenso X foram compartilhadas no Facebook. No twitter, vários internautas expressaram indignação contra as declarações através de hastags de repúdio. 
A opinião pode até gerar espanto mas, ao contrário do que a empresa e seus companheiros de profissão tenham tentado expor, não é somente pessoal. É a cerne da prática profissional de Emerson. Pelo twitter, Machado deixou escapar o que a maquiagem jornalística e de busca pela verdade do programa Correio Verdade tenta a todo custo esconder. Revela a base de valores que Machado carrega consigo e que aplica a cada um dos casos que narra. É pago por pensar assim e para continuar a pensar assim.  Atende aos pré-requisitos curriculares que o habilitam a ocupar o cargo que ocupa e com maestria.
Recentemente, o Sistema Correio de Comunicação anunciou um  intercâmbio entre Samuka Duarte e outros apresentadores de programas policiais do Brasil. Fazendo sucesso na Paraíba, a Rede Record deseja que o estilo Correio Verdade faça escola nas demais emissoras da rede. O modelo agrada e pode ser compartilhado por todo o Brasil. O que significa que a fórmula que tem Emerson como peça importante também é vitoriosa. 
Apesar de não gerar a mesma reação indignada, Emerson Machado, acompanhado de todo o aparato do Sistema de Comunicação que o emprega, dia-a-dia narra a morte de vítimas das drogas como de “homens sem valor”. É essa concepção que o leva a, sem o menor embaraço, questionar insistentemente as famílias das vítimas, a pressionar presos com tanta desenvoltura e nem imaginar a quantidade de Direitos Humanos que viola. Direitos mesmo, só para os humanos direitos, ele deve pensar. 
'Na minha opinião o Brasil não perdeu um profissional e sim um drogado'
Clique para ampliar
Assim, “sentir pena de viver em um país em que se chora a morte de um drogado" não é de todo incoerente. Afinal, Emerson está acostumado e bastante ludibriado com um dia-a-dia em que milhares de pessoas param para acompanhar suas coberturas e nem sempre para chorar a morte dos drogados e suspeitos estampados na tela. Na hora do almoço, milhares o acompanham para julgar, penalizar e rir dos casos que cobre, junto com os comentários de Samuka e a sonoplastia jocosa da produção.


'Estou solidário com os fãs de Chorão, inclusive gosto das músicas dele'
Clique para ampliar
Nesse caso, o Sistema Correio e a grande maioria dos colegas de empresa de Emerson se eximiram de sua defesa. Samuka logo pediu para que não confundissem as opiniões e declarou solidariedade aos fãs e ao artista falecido. Outros tantos pularam do barco de Machado, mesmo trabalhando ao lado dele na produção de matérias que não fogem da concepção que ele expôs em seu twitter.  
A imagem de protesto contra suas declarações foi compartilhada por mais de 3 mil perfis no Facebook. O caso nos faz pensar sobre outra questão: até que ponto o uso das Redes Sociais por comunicadores não é responsabilidade do Sistema que o emprega? A questão é delicada, pois dado a importância dessas ferramentas cada dia mais a relação do jornalista com elas passa a ser praticamente simbiótica. E o cuidado e a dedicação das empresas com elas cresce. 
Em seu twitter, Emerson disponibiliza detalhes das coberturas que promove, convida a audiência a acompanhar a programação da sua emissora, publiciza fotos inéditas dos casos (algumas inclusive que rompem com qualquer padrão de respeito humano) e atualiza quase ao vivo, às vezes sem muita precisão, os fatos dos casos que investiga. Essa postura faz com que aquele espaço seja mais do que pessoal. O repórter é tratado pelo Sistema Correio como uma fonte de informação. São inúmeras as matérias da editoria Policial do Portal Correio, que trazem Emerson como a principal fonte. A relação é complicada, mas revela a necessidade de atenção da empresa com relação a tais ferramentas. De um modo ou de outro ela é responsável.  
No dia 8 de março, um grupo de fãs de Chorão foi até a calçada do Sistema Correio protestar contra o repórter. Mesmo não resultando na demissão de Emerson, além dos cartazes e dos gritos de "Fora Emerson", os manifestantes gritaram "jornalista sem diploma!" para ele. Veja o vídeo. Parte da população acompanha as manifestações do Ministério Público com relação a esse tipo produção, e exige a participação das autoridades na regulamentação e fiscalização. Essas manifestações sinalizam para o apagamento das confusões criadas pela própria mídia, entre os conceitos de liberdade de imprensa e expressão. A população exige responsabilidade, alguns a plenos pulmões e outros através das teclas. O protesto mobilizou muito mais pelas Redes Sociais, o que é natural, mas foi importante porque demonstrou que a qualidade da produção jornalistica é um exigência. Agora, só falta nos indignarmos em nome dos anônimos.  

Janaine Aires é jornalista, mestranda do Programa de Pós—graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ. Membro do Observatório da Mídia Paraibana e do Coletivo COMjunto de Comunicadores Sociais.

Janaine Aires / Autor

Coprights @ 2016, Blogger Templates Designed By Templateism | Templatelib