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Jornalismo Político Paraibano é o retrato da dependência econômica do poder público

Janaine Aires

Uma pesquisa recente do IBGE revelou que 90% dos municípios paraibanos têm pelo menos 40% de suas contas dependentes dos recursos públicos. Para o jornalismo, este dado não é relevante apenas como uma pauta de peso. É fundamental também para compreendermos o exercício do jornalismo praticado em nossas terras. No dia 15 de outubro de 2012, três jornalistas importantes do estado se reuniram para debater a profissão e, em especial, o segmento em que atuam: o jornalismo político.
Helder Moura, Gutemberg Cardoso e Luis Torres atenderam o chamado do Centro Acadêmico de Comunicação da UFPB e aceitaram o desafio de responder perguntas sobre o exercício do jornalismo político paraibano. A atividade era parte da programação da Semana de Ciência e Tecnologia. Além dos três jornalistas, outros nomes do setor foram convidados, confirmaram presença, mas não compareceram. O tema não é, definitivamente, tão fácil como se apresenta.
O debate entre Helder, Gutemberg e Luis foi, para dizer o  mínimo, revelador. Não por que se apresentava ali algum segredo e sim porque ali se estampou a face de elementos importantes muitas vezes negligenciados pelos estudos de comunicação, a saber: o peso da dependência econômica, compartilhado pelo público e consequentemente pelas empresas de comunicação; a força dos meios de comunicação, com o testemunho de Helder e Gutemberg sobre o envolvimento do Sistema Correio no processo de cassação de Cássio; e a necessidade da compreensão de características locais para a produção de uma comunicação eficiente.
A Política, mais do que em outros lugares, é o alimento da Paraíba, defenderam. Em outros momentos, o argumento é que a Política é o ar que o Paraibano respira. Retirando os excessos de tais pontos de vista, é importante somar ao debate sobre as mídias estas características que os profissionais apontam como chaves para o seu exercício profissional. Por outro lado, é extremamente preocupante que a compreensão sobre este exercício desconsidere o prejuízo que a dependência econômica gera no processo de produção do jornalismo.
“Abrir a carteira para pagar uma conta” nos costumeiros encontros com políticos é deselegante, destacaram. O que demonstra que a relação de dependência não se dá somente da redação com os gabinetes, ela é também face-a-face. De certo modo, não podemos esquecer que se trata de uma relação de submissão. As margens da informação jornalística, portanto, serão construídas pelo apelo publicitário, pela relação ideológica com este e/ou aquele grupo da empresa e pela via jornalista-personagem.
Os jornalistas não estão submetidos somente à racionalidade econômica de uma empresa de comunicação que visa o lucro, mas às relações de apadrinhamento e às trocas de favores. E nesses dois momentos, o interesse público é comprometido. O jornalismo investigativo neste campo está morto e enterrado e só ressuscita quando é preciso investigar algo para comprometer o grupo adversário.
Por ser voltada para estudantes de comunicação, os palestrantes dedicaram conselhos à platéia. Entre eles, a indicação de que especializar-se neste tipo de cobertura é mais interessante financeiramente. O que não pode restar dúvidas é que, na atual conjuntura paraibana, o retorno financeiro que este segmento recebe não se dá necessariamente pela “relevância” da produção, mas pela vantagem financeira que a empresa que os emprega recebe com uma produção jornalística que se coloca à serviço de determinados senhores. Em um espaço de reflexão acadêmica, tal quesito tem de ser permanentemente ponderado. A formação do jornalista se complementa com o exercício da profissão, considerando-se a atual conjuntura de dependência é fundamental que as relações sejam problematizadas na universidade, pelas entidades representativas estudantis e profissionais e, por fim, por toda sociedade que consumirá tal produção.
A dependência econômica dos meios de comunicação é perversa. Os profissionais que ganham muito acima da média são os mesmos que vão penar com a sazonalidade dos governos e terão seus empregos abalados a cada troca de gestão. Meses depois da palestra, por exemplo, o veículo que Gutemberg Cardoso trabalhava foi fechado. Segundo a Rede Paraíba, em virtude de não ter correspondido às demandas financeiras da empresa. Já outros apontam o fato de apresentar-se como um veículo de oposição ao atual governo como o motivo. As implicações de tal realidade para a categoria são sérias. O jornalismo e as redações se fragilizam e o poder de confronto com o poder público evapora. É preciso diferenciar o Jornalismo do trabalho de Assessoria de Imprensa, inclusive, dentro do processo de formação do comunicador. São dois exercícios com funções sociais completamente diferentes.
 A tradição de estudos da relação entre e Mídia e Política costuma desenvolver-se sob um ponto de vista macro, em que os processos políticos nacionais são objetos de pesquisa em diversos campos. Mas a compreensão de características locais para a produção de comunicação demonstra que os estudos que se apropriem da mídia local, são fundamentais. O padrão de comunicação estabelecido nos grandes centros nem sempre tem efeitos nos panoramas locais de mídia e as relações entre as localidades e os grandes centros ainda carecem de cobertura analítica. É importante destacar este fato quando estamos diante de um conteúdo que ainda merece muitas análises, assista o registro do evento e nos ajude a construí-las. 

Janaine Aires  é jornalista e mestranda do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ, membro do Observatório da Mídia Paraibana e do Coletivo COMjunto.





Janaine Aires / Autor

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