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Resenhando "Mídia, Poder e Contrapoder"

Janaine Aires

MORAES, Dênis de, SERRANO, Pascual & RAMONET, Ignácio.  Mídia, Poder e Contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação. Tradução Karina Patrício. São Paulo: BOITEMPO; Rio de Janeiro: FAPERJ, 2013. 

Janaine S. Freires Aires 

No prefácio, a professora Raquel Paiva sentencia, com razão: temos em mãos um livro necessário. “Mídia, Poder e Contrapoder – da concentração monopólica à democratização da informação” adota como ponto de partida o desejo de interpelar uma contemporaneidade diametralmente atravessada pelos processos de midiatização, tecnologização e mercantilização das suas relações sociais.
O livro é resultado do encontro de três pensadores. O professor da UFF Dênis de Moraes e os jornalistas Ignácio Ramonet e Pascual Serrano desenvolvem o livro no intuito de reafirmar a convicção de que é possível construir um jornalismo inquieto, ético e plural, livre de cooptações nos dias de hoje. Para reafirmar essa convicção, no entanto, os autores percorrem um caminho interessante de reflexão.
A primeira parada é de Dênis de Moraes, que fixa o olhar na imagem de uma árvore para refletir sobre o sistema midiático atual. Pertencente a um número reduzido de proprietários, a tal árvore abriga em cada um de seus galhos setores produtivos da informação e do entretenimento, interligados por fios condutores invisíveis – a tecnologia. Sua força vital não é, ao contrário da árvore  garantida pela força da natureza, e sim pela potência planetarizada de seus canais, conectados em tempo real e com uma velocidade incalculável. Porém, tão determinante quanto a pachamama, seu poder é desmaterializado, penetrante, invasivo, cada dia mais livre das resistências físicas e territoriais e cujos tentáculos penetram espaços muito além da televisão, do rádio, do cinema e dos meios impressos. Fala-se de um momento histórico em que a interseção entre capital financeiro e capital midiático é cada dia mais profunda.
Favorecido pelo aprimoramento das tecnologias de comando à distância e a velocidade circulatória de capitais, o modelo de organização se torna estrategicamente mais colaborativo e descentralizado, o que resulta no aumento de lucros, a partir do corte de despesas e divisão de perdas.  Nesse contexto, a exigência de proximidade de lugares de planejamento, produção e consumo é obsoleta. A concentração de poder que retrata o sistema midiático atual, portanto, acontece sem centralização operacional. A gestão das identidades culturais, agora, é feita a partir de uma escala global. As diferenças locais são toleradas dentro dos limites da comercialização. Conclui-se assim que o sistema midiático desempenhará papel estratégico como agente discursivo da globalização e do neoliberalismo, bem como exercerá o papel de agente econômico.
Na segunda parada, é Ignácio Ramonet quem nos convida a compreender os meios de comunicação como ferramentas essenciais à democracia. No entanto, nos últimos quinze anos, sob o ponto de vista de Ramonet, vivenciamos um conflito entre a sociedade e os meios de comunicação, marcado pelo aprofundamento da crítica social contra o modo de atuação da mídia dominante. Um processo no qual o advento da internet foi determinante. A missão de “domesticação da sociedade” promovida pela grande mídia passa a ser cada dia menos aceita.
Essa situação contrasta com o fato de que no contexto da Democracia fundamentada nos três poderes, tendo cada um seu contrapoder, a mídia não admita nenhum tipo de oposição. “O poder econômico”, argumenta, “deve suportar o poder sindical, que o contradiz e critica. Mas quem critica o poder midiático? Em nossas sociedades, ele é o único sem um contrapoder”. E este é um ponto fundamental a ser pensado e debatido no âmbito da crítica de mídia. Muito embora, aproveitando as brechas possibilitadas pelas novas tecnologias, a crítica de mídia e o controle normativo não alcançará a magnitude da mídia. O que só reforça a necessidade permanente de debate em torno da questão e aplicação de estratégias que possam introduzir equilíbrio, capaz de alojar um exercício de contrapoder.
  Ramonet alerta ainda para o desaparecimento do jornalismo investigativo, resultado do atrofiamento das qualidades dos jornalistas. Uma situação que corrompe a democracia. Somado à necessidade de grandes investimentos e um alto grau de industrialização, trazido por Pascual Serrano no texto seguinte. Tais fatores colaboram para que o exercício do direito à liberdade de expressão só possa ser desfrutado por um determinado setor social. Na atual conjuntura, a mídia não exercita a liberdade de expressão e sim o direito à censura, na medida em que decide o que ganha visibilidade.
A segunda parte do livro é ainda mais estimulante, pois é nela em que se regam as sementes. Ramonet inicia a seção descrevendo a criação de um continente midiático inédito produzido pela internet, e as possibilidades de nele se abrigarem novas ferramentas de jornalismo que estabeleçam concorrência direta com o jornalismo tradicional. Os “neojornalistas” são responsáveis através de um movimento “amador-profissional” por enriquecer o processo de informação jornalística. No entanto, ainda convivemos com o que Ramonet denomina de "crise habitual do jornalismo". Anterior à situação atual, é reflexo da perda de credibilidade dos jornalistas devido ao forte vínculo que muitos deles mantêm com o poder econômico e político. A perda de credibilidade é resultado da desconfiança e é consequência do desenvolvimento do negócio midiático. A ruptura de papéis propiciada pela internet contribui para que o monopólio de informação aos poucos chegue ao fim. E como isso pode acontecer? É a esta pergunta que, de certa forma, Moraes e Serrano vão concluir o livro.      
Moraes foca na análise de agências alternativas de notícias latino-americanas que se utilizam das ferramentas digitais com sentido contra-hegemônico. Experiências que de alguma forma desestabilizam o atual estado de coisas e propiciam o assentamento de um terreno fundamentado em uma nova forma ético-política. A tarefa da comunicação contra-hegemônica para Moraes é “reivindicar o pluralismo e o valor das histórias e culturas e motivar-nos à reflexão sobre o mundo vivido”.
Fechando “Mídia, poder e contrapoder”, Serrano aponta caminhos para a efetivação de outro jornalismo possível na internet. Conscientes das múltiplas facetas da crise midiática (de mediação, de credibilidade, de objetividade, de autoridade, de informação e de distribuição), experiências de comunicação contra-hegemônicas podem depositar grandes expectativas na regeneração do modelo comunicacional, se souberem aproveitar-se delas.  É, por isso, que Serrano dedica-se no restante do texto a criar uma espécie de manual dedicado aos coletivos sociais que se apropriam da comunicação como instrumento contra-hegemônico.   

Janaine Aires / Autor

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