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Resenhando: O Grotesco e o erudito não são opostos

Janaine Aires

Janaine S. Freires Aires

Resenha de SODRÉ, Muniz. A Comunicação do Grotesco: um ensaio sobre a cultura de massa no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1972.


Um texto clássico é aquele que ultrapassa o seu tempo, mantendo a sua relevância e importância reflexiva sem importar a distância temporal que separa a produção e a leitura. Este é o caso de “A Comunicação do Grotesco: um ensaio sobre a cultura de massa no Brasil”, de Muniz Sodré. Clássico para os estudos sobre a comunicação e a cultura de massa, mesmo tendo sido escrito em um momento pré-internet.  Publicado há 30 anos, o livro se lança ao desafio de pensar a cultura de massa brasileira, questionando o velho hábito de transplante cultural de teorias e conceitos, que tornam ainda mais problemática a já escassa reflexão tabajara sobre a comunicação.
Sodré introduz o que permanecerá no seu exercício de reflexão até os dias de hoje: a necessidade de instauração definitiva de um processo teórico necessário à constituição (e reconhecimento) da Comunicação como ciência. Movimento necessário para se fugir do risco de converter a Comunicação à uma técnica destinada à promoção e à perpetuação de símbolos e objetos de uma sociedade de consumo ocidental. Evidentemente, o desafio não é fácil de encarar.
 Além da carência de pesquisa e teorias próprias (muito embora tenha ocorrido avanços no período que separa a escrita, década de 1970, e a nossa leitura), Sodré destaca a ausência de coragem e humildade para transpor impasses que encarceram o pensamento da comunicação. Em “A Comunicação do Grotesco”, defende que o fenômeno da cultura de massas só se tornou possível pela multiplicação vertiginosa dos veículos de comunicação, mas também pela urbanização crescente, que viabilizou a formação de públicos de massa e o aumento das necessidades de lazer. Isto significa que, segundo Sodré, a cultura de massa pressupõe um suporte tecnológico, que permite a instauração de um sistema moderno de comunicação ajustado a um quadro social propício. Sob este ponto de vista, é problemático conceber a cultura de massa como uma unidade autônoma oposta a uma suposta cultura elevada ou superior.
Esta concepção nos convida a alterar o que pensamos sobre a cultura de massa, geralmente concebida em “oposição à cultura superior”. Esta oposição é falsa, uma vez que ontologicamente, o código da cultura de massa é o mesmo da cultura elevada, apenas adaptado para o consumo de todas as classes sociais. Estruturalmente não se instaurou uma cultura tradicionalmente diferente, instaurou-se  isto sim uma extensão, mais sintonizada com a existência das classes mais populares.
A informação jornalística tem a finalidade de ordenar a experiência social, e desta forma a informação tem uma função política. A Comunicação do Grotesco, portanto, só pode ser realmente compreendida em um contexto mais complexo atravessado por motivações de consumo, interesses eventuais dos governos, recuperação mítica da cultura oral, diluição da cultura elevada e pelo acionamento de velhos mecanismos da consciência coletiva nacional, através dos quais os detentores do sistema de comunicação projetam a sua formação de elite sobre as massas.

Onde está o grotesco nisso tudo? Muniz argumenta que o ethos da cultura de massas brasileira é fortemente marcado por influências escatológicas da tradição popular. O grotesco parece ser a categoria estética mais apropriada para traduzir este ethos. Essencialmente capitalista, a cultura de massa é hoje o grande medium da atmosfera capitalista, mas para além disso é espelho que reflete nossos demônios. A principal mensagem de “A Comunicação do Grotesco” é que o grotesco não pode ser concebido como um signo concepcional, como uma anomalia social. 

Janaine Aires / Autor

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