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Resenhando - Samuka conta o quê?

Janaine Aires

Janaine S. Freires Aires 

ANDRADE, David. Como vencer na vida: Samuka conta tudo. 1ª ed., 109p., João Pessoa: Imprell, 2013




“Como vencer na vida. Samuka conta tudo” possui 24 capítulos distribuídos em 109 páginas. A autoria é atribuída a David Andrade, mas os espaços de dedicatória e agradecimentos são assinados pelo personagem Samuka. Por ai, podemos compreender o objetivo do livro, narra-se a história que Samuka quer contar sobre si. 
Misto de biografia com auto-ajuda, o livro é uma ferramenta importante na construção estratégica da imagem de Samuka e nos leva a refletir sobre uma porção de elementos. Um deles é que há “uma estratégia sensível” no processo. Isto é, uma conjunção de ações que não deixa de ser estratégica, mas que se baseia numa comunhão, na comunicação que dialoga diretamente com as demandas afetivas do seu público. Não é possível, na observação deste produto e de todos os demais aspectos que o conformam, colocar a razão e a emoção em campos opostos. No entanto, não podemos nos iludir: este livro, associado a sua presença nos meios de comunicação, é peça importante para a construção da imagem política de Samuka, uma imagem política que se reconhece no movimento de desqualificação da política tradicional, embora esteja lado a lado com ela, e passa a construir suas estratégias a partir da identificação diária dos interesses coletivos. Somente possível de ser viabilizada pela visibilidade que a mídia lhe proporciona diariamente nos programas Correio Verdade,  na televisão, e no Correio da Manhã, no rádio, e pela relação permanente com o público.  

Já nos agradecimentos, para além das tradicionais dedicatórias a Deus e à família, Samuka manda um recado para os poderes que se relacionam com o programa. Será mesmo que o ministério público o tem elogiado como afirma nos agradecimentos? E o tribunal de justiça que condenou a emissora em que trabalha gosta mesmo da sua performance? O prefácio do jornalista Jaimacy Andrade deixa claro: o livro não tem nenhuma pretensão de ser reconhecido pela crítica literária. Não falamos de uma grande história ou de algo criativo, trata-se de um exemplar de auto-ajuda voltado para o público que prestigia o Correio Verdade, formado em sua maioria pelas classes C, D e E.

A literatura de auto-ajuda, na qual “Como vencer na vida - Samuka conta tudo” se encaixa, é absolutamente desprezada por estudos mais importantes. Da mesma forma que o gênero “popular/sensacionalista” é relegado ao limbo dos estudos da comunicação. O que contrasta diretamente com a importância do tipo de discurso que veiculam no sistema de produção capitalista e na ordem tecnoburocrática de organização  social.
Como sugere Muniz Sodré, em “O social irradiado: violência urbana, neogrotesco e mídia”, a tecnoburocracia está implícita na própria lógica elitista do processo de modernização do país. Uma lógica em que não se enxerga como violência a presença de uma antena parabólica de televisão em um posto de saúde onde falta o básico para o seu funcionamento, por exemplo, seringas e remédios.  A televisão e seus discursos, sob essa lógica perversa, são apresentados como elementos não violentos. Afinal, confortam, divertem, informam e instruem a preços e esforços mínimos. 
Sem distanciamento crítico, o provável leitor poderá ser capitaneado por essa lógica. Neste contexto, seriam terrivelmente cruéis quaisquer críticas à performance de Samuka. Ele se apresenta como um vencedor, um menino que como outros passou fome, trabalhou desde pequeno vendendo coisas ou pintando cruzes de cemitério, mas que nutriu incansavelmente o desejo de falar na rádio.
Samuka na livraria para sessão de autógrafos

Os argumentos que apontam a literatura de auto-ajuda que se pratica neste livro como algo que acentue e colabore para o apagamento do processo que está por trás deste personagem costumam ser excessivamente intelectualizados para serem compreendidos e aceitos fora do circuito acadêmico
Durante a leitura desta obra, sabemos que Samuka teve sovaqueira e curou com limão. Que Samuka dormiu com fome e foi constrangido pelo dono da mercearia cobrando-lhe as contas não pagas. Que Samuka, quando soldado, sofreu com o Sargento 'Topogijo" (sic). Que Samuka, de cabeça erguida e passos largos, “seguiu firme. Tinha Deus ao seu lado. Tinha fé e acreditava no seu trabalho” (p.81). Que Samuka, de "tão amado pelo público", foi obrigado pelo seu patrão a se candidatar a vereador em 1972. Que Samuka, de "tão amado pelo público", teve de participar da campanha do prefeito Marcos Odilon. Que Samuka, de "tão amado pelo público", foi escolhido para ser assessor do filho do prefeito de Santa Rita, o Deputado estadual Quinto. Que Samuka diz não suportar a política, mas "tão amado pelo público" não pode dizer que dessa água não beberá. Que, antes de dormir, Samuka “ora e pede a Deus que não deixe jamais essa fama subir à cabeça. Que sua índole permaneça sempre a mesma e que o Pai, pela eternidade lhe abençoe e cubra de bênçãos a todos que o cercam e aqueles a quem ele tem tanto carinho” (p. 93).  

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Samuka palestrando 
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Samuka na mesa de autógrafos
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Samuka ao lado dos vereadores. 
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Estudantes pousam com Samuka e com
 os livros presenteados.
 

A publicação, que custa R$ 10,00, está à venda nas Lojas Narciso, que é uma das principais anunciantes do Correio Verdade e tem produtos voltados para as classes C, D e E, mas também está disponível em livrarias e bancas. Samuka tem percorrido cidades para a divulgação do livro. Segundo matéria exibida no seu programa, na cidade de Santa Rita, da qual ele é funcionário, 200 exemplares foram comprados (muito provavelmente com dinheiro público) e serão distribuídos nas escolas do município. O evento de distribuição dos livros foi acompanhado pelos vereadores de Santa Rita, Célio Rufino (PTC) e Paulo Martins (PHS). O apresentador esteve na cidade, deu palestra para estudantes e ainda está com a agenda aberta para convites. 

O texto tem como meta apresentar o personagem como semelhante a quem está lendo. A mensagem é: “Samuka é do povo”, hoje está rico, mas "é igual a você!” O que está escrito nas entrelinhas é que o seu sucesso não depende em nada das relações políticas e econômicas que o sustentam, nem das estratégias de produção da sua audiência, construídas no berço dos desejos lucrativos da empresa da qual é funcionário. Tudo é  contado como se fosse natural, verdadeiro, consequência do amor e da fé. Samuka é apresentado como se não fosse terreno. Samuka é vendido como um abençoado. Muito embora não devamos superestimar o processo, esse movimento de naturalização retira os pés do personagem do chão. Aos pouquinhos ele vai subindo, subindo, subindo... e vai ser difícil de alcançá-lo.   

Janaine Aires / Autor

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