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Sobre helicóptero e fantasmas

Janaine Aires

O embate tem helicóptero, “armas”, políticos, muitos soldados e até fantasmas. Mas se engana quem acha que nesta batalha midiática as táticas de guerra são de alto nível. Na Paraíba, o conflito aponta armas para um único alvo: aquele que tem a maior audiência no momento.  
Quem acompanha a disputa dos meios de comunicação do estado, visualiza sem maiores dificuldades que todos os canhões dos adversários estão voltados para o programa Correio Verdade, do Sistema Correio de Comunicação. Além de ser o programa de maior audiência, o cenário da atração é o palco em que mais se defendem os interesses da empresa, no que se refere à construção negativa dos concorrentes. São diários os discursos contrários do apresentador aos poucos instrumentos de leitura crítica da mídia que existem na Paraíba e, em especial, às emissoras adversárias.
“Enquanto os outros criticam, nós do Correio Verdade fazemos”, fuzila Samuka Duarte em uma ladainha diária. Os que discordam da sua postura são “intelectuais de meia tijela, hipócritas e incompetentes”, segundo ele. O despreparo de Samuka para lidar com as críticas se evidencia também fora das telas da TV e das ondas do rádio, a exemplo das palestras em que é convidado a participar e despeja arrogância em seus pares.  
O espaço que o programa passa a ocupar preocupa não só pelos inúmeros exemplos de falta de zelo no trato com a informação, mas também pelo modo de lidar com a audiência e fazer valer unicamente seus interesses. O Correio Verdade tem construído e consolidado ferramentas que o colocam em uma trincheira diferenciada no contexto da mídia paraibana. Por trás dos conflitos pessoais, também está a disputa pelo lugar em que o programa ocupa.
Não há dúvidas da necessidade de leitura crítica desta produção e de seu acompanhamento permanente, mas o incômodo que o programa tem gerado nos concorrentes e os conflitos que se estabelecem a partir disto nos revelam matizes  midiáticas importantes de serem discutidas.
Na disputa por hegemonia no território da comunicação, o insumo maior a se conquistar é a audiência, mas não somente ela. Estão em jogo também os interesses do patrão e as arestas  do convívio profissional a serem aparadas nos espaços de produção da informação. Neste ambiente, misturam-se os problemas profissionais e também os pessoais, com toques especiais das armas discursivas do machismo, da distorção e das picuinhas entre os atores.
Algo é certo: nesta guerra, só quem perde é o público. 

PREPARAR, APONTAR, FOGO!

Na quinta-feira, 20 de junho de 2013, João Pessoa vivenciou o seu capítulo nas manifestações que se espalharam pelo país no último mês. Milhares de paraibanos foram às ruas com cartazes e dezenas de reivindicações. A mídia repercutiu. Episódios nesta cobertura marcam debates na mídia que já vêm se estabelecendo ao longo do tempo, mas que na última semana se intensificaram.
A TV Tambaú, através do programa Caso de Polícia que ocupa a mesma faixa de horário e de temática que o Correio Verdade, lançou seu míssil. Em tom de chacota, o apresentador Fábio Araújo revelou o segredo da produção de Samuka, que no ar anunciava “imagens aéreas”, dando a entender que sua cobertura, excepcionalmente, contava com um helicóptero para cobrir as manifestações. Samuka, no estúdio, descrevia o percurso do suposto helicóptero, girando no ar os dedos indicadores. O apresentador solicitava que se apresentassem as imagens da cobertura do evento. O que se exibia eram imagens em zoom da cidade, somadas a um som insistente de um  motor de helicóptero.




Fábio chamou o link ao vivo e sua equipe alojada em um ponto privilegiado revelou que os cinegrafistas do Sistema Correio estavam no alto de um prédio no centro de João Pessoa. As imagens vinham na verdade de um “prediocóptero”. A despeito das Convenções de Genebra, tratados que salvaguardam os direitos e deveres dos combatentes, nesta guerra, a revelação, de tão hilária, foi parar na internet e mais tarde ganhou destaque em programas de humor do país. O “prediocóptero” de Samuka ficou na primeira posição do Top Five do CQC, da Band.



Já o programa do Sistema Arapuan, Cidade em Ação, do qual Samuka fora apresentador,  bombardeou com um vídeo da passeata em que manifestantes esbravejavam “Ei, Samuka, vá tomar no c*”. O apresentador Vinicius Henriques fez um discurso revelando o que chamou de “ingratidão” de Samuka, momento que ultrapassou dez minutos. E questionou a arrogância de Samuka para com os colegas da empresa em que iniciara sua carreira na TV. 

DAS CÂMERAS PARA À CÂMARA 
  Das telas, o debate partiu para a Câmara dos Vereadores do município de Santa Rita. Cidade em que Samuka nasceu, foi candidato a vereador, em 1972, e é cotado a representar, embora ele próprio negue a pretensão de assumir cargos políticos. O vereador João Júnior, pegando o mote do helicóptero, aproveitou para atacar rememorando a denúncia de que Samuka e familiares ocupam cargos públicos na prefeitura, mas não aparecem para trabalhar. Anteriormente, Samuka já havia tentado se defender  destas denúncias em seu programa de rádio. Questionado por um ouvinte da cidade de Santa Rita sobre seu trabalho fantasma, Samuka argumentou prestar serviços à cidade e que se tratava de um "funcionário publicitário". Categoria que criou para definir seus serviços no município, segundo ele: divulgar a cultura e o nome da cidade. 



João Júnior (PSB), aparteado pelos parlamentares Aurian Soares (PSB) e Sebastião do Sindicato (PT), enfrentou a situação e apelou para que, junto com o helicóptero, o funcionário Samuel de Paiva Henrique, lotado na Secretaria de Educação, fosse destinado à Secretaria da Comunicação do município. De modo irônico, os vereadores revelaram que mesmo sem trabalhar Samuka recebe pelo cargo mais de R$ 3.000,00 e que familiares seus também estariam ligados à prefeitura de modo irregular. Segundo eles, o horário de trabalho na cidade coincidiria com expediente de Samuka na televisão e na rádio. O vereador Sebastião do Sindicato, inclusive, apontou a necessidade de se acionar o ministério público.

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O Portal Sagres indica a filha do apresentador, Wendjane Grayce, como Assessora Especial da Secretaria de Saúde do Município, em cargo comissionado. Em dezembro de 2012, o Portal ClickPB noticiou a demissão da Empresa de Limpeza Urbana de João Pessoa, a Emlur, do filho do apresentador, Wendyslann Bruce.  Wendyslann, conhecido como Samuka Filho, também é repórter do Sistema Correio e atuava como comissionado na Emlur. Mas ainda no mesmo mês, e com efeito retroativo para o mês de novembro, Wendyslann Bruce foi nomeado Assistente do Gabinete do Prefeito de João Pessoa, Luciano Agra. 


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Nas folhas de pessoal do ano de 2011, outro repórter do Correio Verdade, Emerson Machado, também aparece como funcionário do município de Santa Rita.

A denúncia da Câmara precisa ser apurada caso a caso, afinal, deve-se garantir o direito de defesa, e até se considerar que estejam realmente prestando serviços à cidade e cumprindo suas funções. Porém, na maioria dos casos, é bastante duvidosa a hipótese da possibilidade de conciliação de funções tão diversas em cidades distintas e nos mesmos horários, pois até onde se sabe nenhum dos acusados goza do dom da ubiquidade. Além de ser no mínimo questionável a competência conferida a comunicadores e seus familiares ao serem destinados a assumirem cargos especiais em setores essenciais, como os de educação, saúde e limpeza urbana. E mais estranho ainda o fato de sempre estarem lotados em cargos comissionados. Isto é, aqueles que dependem da indicação política e não de concurso público. 
Não podemos esquecer, no entanto, que a prática de se receber dinheiro público sem se prestar serviços e cumprir horários é criminosa. Porém, isto, infelizmente, é corrente no mercado de mídia paraibano. As listas de funcionários comissionados das prefeituras e do estado apontam inúmeros profissionais, incluindo alguns renomados, recebendo dividendos das folhas públicas. Isto nos revela a precariedade do mercado de mídia paraibano e suas amarras às elites políticas locais. Para a compreensão da nossa produção midiática, esta faceta não pode ser negligenciada quando observamos os movimentos de avanço e recuo desta disputa.

SAMUKINHA, O INFANTE


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Como resposta aos ataques das emissoras adversárias, o programa Correio Verdade intensificou os recados para os críticos e dedicou espaços do seu programa para dar suas versões dos fatos. Para as denúncias do vereador João Júnior, que podem ser comprovadas pelas ferramentas de transparência pública, não houve respostas da parte de Samuka. 

Foi Samuka Filho o soldado encarregado de lançar mão de sua infantaria para contra-atacar. Por sinal, de modo baixo e preconceituoso. Em seu twitter, seguido por mais de 12 mil pessoas, Samukinha divulgou um vídeo em que supostamente dois homens estão em momentos íntimos e fez diversos comentários. Segundo o repórter, trata-se do referido vereador e de seu assessor político. Uma denúncia grave de uso do dinheiro público foi abafada pela implantação de uma fofoca em que se questionava a sexualidade do vereador, e este fato foi mais repercutido pela imprensa. Vários portais, numa atitude corporativista e discriminatória, reproduziram tal denúncia, abafando o que fora revelado pelo parlamentar. Não entrando no mérito de verificar se seria ou não realmente o vereador e seu assessor os personagens filmados e de se questionar a legitimidade da fonte de aquisição do vídeo, destacamos para o fato de que a estratégia usada para a defesa era o ataque: disseminar a ideia de que ser homossexual seria mais negativo para a imagem da cidade do que ser funcionário fantasma. No ambiente conservador como parece ser o da cultura paraibana, e sobretudo  o da cidade de Santa Rita, isto ecoou como uma bomba e teve seus efeitos.
Ainda no front de guerra, como contra ataque às falas de Fábio Araújo, apresentador do Caso de Polícia que denunciou o episódio do helicóptero, Samukinha veiculou denúncia contra um funcionário da TV Tambaú. Sem especificar qual teria sido o empregado, anunciou no seu twitter que este teria sido preso por ter infringido a Lei Maria da Penha. Exigindo da TV Tambaú que passasse a controlar o comportamento dos seus próprios funcionários e deixasse de apontar os erros dos adversários. A denúncia parece não ter surtido muito efeito. 
Samuka Filho, nesta disputa, acumula diversas patentes. Aparece no programa do pai na cobertura de diferentes matérias, mais especificamente nas matérias de construção mitológica da figura de Samuka - aquelas em que se noticia o apresentador, suas visitas a casas de telespectadores e suas ações políticas. Samukinha é um suporte nas estratégias para a construção midiática do pai como uma figura ilibada. Goza dessa condição, não só por assumir a função de repórter (sem formação profissional tal como o pai), e  angariar cargos comissionados, como as denúncias apontam, mas principalmente por ter sido acolhido pela programação da TV Correio, extrapolando a grade do Correio Verdade. Motivo que o fez ser cotado a pleitear cargos eletivos na sua cidade nas eleições passadas. Embora Samukinha tenha desistido do pleito, cabe destacar que essa estratégia deu certo. O economista Djanilson da Fonseca também foi acolhido pela programação da emissora, aparecendo recorrentemente em suas atrações de cunho popular, em que inclusive ganhou a alcunha de Djanilson Faca Cega. O Correio Verdade e o Correio Manhã, programas de TV e de rádio de Samuka, respectivamente, foram fundamentais para a eleição de Djanilson ao cargo de vereador. Hoje, o sistema Correio  usa este mandato como ferramenta e vice-versa.   
No caso de Samukinha, as relações que o sustentam prestigiam os laços familiares, da mesma forma que acontece com a política tradicional, em que o capital político é transferido "automaticamente" pelo sangue. Ou seja, falamos de algo não muito diferente da transferência de poder que se estabelece no bojo da elite política, em que, por exemplo, a manutenção do capital simbólico dos nomes próprios é tão importante. Na mídia, Wendyslann Bruce não é Wendyslann Bruce, mas, sim, Samuka Filho, Samuka Júnior, ou simplesmente Samukinha. Nomes e sobrenomes também são heranças. Já parou para pensar nisso? Esta é uma explicação para que na política tenhamos tantos 'júniors', 'netos', 'sobrinhos', bem como o uso da preposição 'de' indicando pertencimento (fulano de beltrano) e de diminutivos (Ronaldinho Cunha Lima).  
Neste caso, em específico, trata-se da transferência de capital midiático, que é também político. É a política moldada pelas transformações da Era da Comunicação de Massa. No entanto, isto não é novidade: pelo Brasil, são inúmeros os casos em que essa transferência acontece, a exemplo de Ratinho que passou seu "capital midiático" para o seu filho, o Ratinho Júnior. O apresentador e empresário participou de todas as campanhas do filhote. Com o lema "Um pedido de pai: vote no meu menino", Ratinho Júnior conquistou o cargo de deputado estadual, deputado federal e chegou ao segundo turno no pleito pela prefeitura de Curitiba, impulsionado pelo pai. 
No Rio de Janeiro, o mesmo fenômeno aconteceu. Wagner Montes, o "Samuka Carioca", foi o deputado estadual mais votado pelo Rio de Janeiro e nas eleições municipais atuou na campanha do seu herdeiro, "Wagner Montes, o Filho". A instrumentalização política dos meios de comunicação, portanto, não é exclusividade da Paraíba, muito menos a reprodução da unidade familiar como a base para a interlocução política. 
No emaranhado do campo minado desta disputa, o interessante é que esta transferência se reproduza nos espaços de programas de cunho sensacionalista. Embora se apresente como renovação e juventude, a política feita na mídia, e principalmente nas fronteiras destes programas, reproduz o estabelecido, sendo construída na órbita e sob as asas da política de elite dos radiodifusores e da política tradicional. Por isso, não é à toa que, neste confronto por audiência e cargos públicos, tenhamos recorrentes denúncias de aliança destes atores com governos municipais, estaduais, distrital e federal. Não é de se estranhar que neste jogo bélico, as táticas de ataque e defesa quase sempre apelem para o questionamento da sexualidade e da masculinidade de quem denuncia. Golpes baixos de uma guerra suja.

Janaine Aires é jornalista, mestranda do programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura da UFRJ e membro do Observatório da Mídia Paraibana e do COMjunto.

Janaine Aires / Autor

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