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A vítima é culpada desde que nasceu

Janaine Aires



Houve uma adolescente de 15 anos cujas fotos nua viraram o assunto preferido em Pombal. Os registros estavam no celular de um ex-namorado e acabaram disseminados nas ruas através do aplicativo Whatsapp. Pelo fato de ter se deixado fotografar sem roupa, essa moça não merece e nem tem idade para se tornar Geni. Mas, quem disse que o mundo seria justo? Na realidade, diferente e bem pior, como preconizou Belchior, ela está sendo alvo de merda na cidade, no Estado e em um espaço privilegiado da mídia. Acharam-na feita para apanhar e boa de cuspir.
 
Na quarta-feira, 4 de dezembro, um programa radiofônico senhor do Ibope no meio-dia abordou o caso da jovem vítima da superexposição e um dos apresentadores julgou que a única culpada do episódio era a própria jovem. Classificada como "safada", ela foi veementemente repreendida, responsabilizada e achincalhada pelo comunicador. "Minha polícia", disse ele, não deveria perder tempo com isso porque teria assuntos muito mais importantes com os quais se ocupar. 
O colega de bancada interferiu. Defendeu a moça e seu direito à privacidade. Opinou pela adequação de uma investigação policial para punir o responsável pelo indevido compartilhamento das imagens íntimas da adolescente. Levou bordoada e foi "aconselhado" a ir à merda. No arremate de seu comentário, o primeiro radialista agradeceu a Deus por ter apenas dois filhos e nenhuma filha.
É um caso estrondoso de culpabilização da vítima. Tão comum, infelizmente, quanto deplorável. Tenta-se inverter a lógica para punir, de novo, quem já é parte prejudicada num crime. O principal suspeito de espalhar as fotografias, o ex-namorado, sequer recebeu uma crítica. Na loucura do julgamento de exceção, o macho "pegador" pode depreciar sua "presa" depois que ela perdeu, para ele, o interesse. 
E à adolescente, cuja confiança no ex-parceiro foi perdida, sobram a frustração e a condenação coletiva. Aos 15, 30 ou 50, isso, numa análise reducionista, dói. Na adolescência, quando ainda buscamos a aprovação dos pais e da sociedade, pode ser um trauma fatal. Já aconteceu com várias jovens. São penalizadas por terem clitóris, sexualidade e por estabelecerem vínculos afetivos e/ou eróticos. Uma sabotagem ancestral insiste, antes mesmo da Idade Média e até hoje, em condenar a mulher que não se conforma em ser anulada e busca direitos iguais. 
No dia seguinte, o apresentador reconheceu o “excesso” de suas palavras, muitas de baixo calão, mas se disse mal interpretado. Pediu, ainda, perdão ao colega por tê-lo atacado. “Foram coisas que a Paraíba não precisava ouvir. Nunca desejei ofender a ninguém. Muito menos às mulheres”, disse. Ofendeu. Ao menos, remendou o mal feito. Talvez pela pressão das redes sociais,mas, o que importa é que o recuo foi também pedagógico.
 
Obrigada pela aula, Tatyana Valéria, puxadora desse movimento de controle social dos meios de Comunicação. 

[Artigo de Claudia Carvalho, jornalista]  

Janaine Aires / Autor

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