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Joga matéria na Geni

Janaine Aires
Geni é uma moça bonita cujo principal feito foi ter domado o coração do malvado Zepellin e salvo um povoado inteiro de sua fúria. Apesar de salvar a todos, mesmo contra a sua vontade, a singela Geni continuou a sua saga e a cidade seguiu destilando sobre ela seus venenos e preconceitos. Geni era uma travesti que viveu no cenário hipotético da música de Chico Buarque, composta para a Ópera do Malandro, na década 1970. A vida da personagem traduzida no refrão "joga pedra na Geni" tornou-se um bordão para definir execrações públicas de pessoas. 

Aclamada pela crítica, a canção e a peça da qual ela faz parte três décadas depois ainda é considerada uma brilhante crítica ao colonialismo. Mais do que isso é um crítica à hipocrisia social e ao falso-moralismo. Em 2015, a Paraíba assistiu a execração pública de uma outra Geni. Só que esta não conseguiu salvar a cidade do Zepellin gigante temido e poderoso. A Geni a que me refiro é a jornalista Pâmela Bório, que em 2015 separou-se do governador Ricardo Coutinho (PSB). 

A visibilidade da qual felizmente ainda goza é certamente elemento fundamental para que apesar de tantas pedras lançadas ela ainda permaneça de pé. A mídia ocupa papel central nesta espécie de apedrejamento moderno. E é sobre isso que queremos falar. Setores da mídia paraibana, instrumentalizados politicamente, nos mostram quão importante é debater as interfaces entre o machismo e a mídia e sobretudo as fragilidades da separação entre o público e o privado.  

Como na música, a Geni do qual falamos ora foi bendita e ora foi maldita pela mídia. Tudo isso, como resultado dos impactos da polarização política do Estado no exercício jornalístico local. Sistemática e paulatinamente construiu-se sobre ela uma percepção preconceituosa com investimento, no passado, da oposição ao governo de seu ex-marido. Atualmente, tal distorção permanece sendo promovida para alimentar os interesses da situação e colocá-la em uma situação de ostracismo político, profissional e materno. A cada episódio fica evidente que o viés da abordagem supera a não aceitação do contraste de seu comportamento com o que se esperava de um "padrão" de uma primeira-dama (que vamos combinar, é especialmente machista, elitista e submisso). A natureza da abordagem, seus enquadramentos e os impactos obedecem a uma dinâmica machista e de violência simbólica contra a mulher. 

Desde o início da sua atuação como primeira-dama, são associados à jornalista atributos depreciativos. As manchetes falam por si.



Dércio de Alcantâra colaborou para macular a imagem da jornalista
enquanto a mesma era primeira dama, hoje segue o caminho contrário,
mas com os mesmos objetivos: afetar o governador. 


Apesar de homens estarem diretamente envolvidos no caso de corrupção da Granja Santana,
o escândalo adotou referências a sua naturalidade.    
Reforço à profissão de miss e de modelo.


Eleições 2014 


Uma breve passagem pelo setor de busca do Tribunal Eleitoral da Paraíba deixa claro a centralidade da mídia no jogo de disputa pelo poder. Nos bastidores das eleições 2014, os processos que apontam irregularidades no uso político dos meios de comunicação correspondem a mais de 50%. Aquele ano está repleto de processos contra jornalistas da oposição que buscavam atacar a candidatura de Ricardo Coutinho a partir da imagem da sua esposa na época. 

Na campanha, a oposição tratou de espalhar muitos boatos, entre eles de que a jornalista vivia em cárcere privado, já que em parte significativa da campanha não fez pronunciamentos. A oposição também utilizou-se do vídeo em que o governador é flagrado agredindo verbalmente a esposa e a suposta existência de outros 17 registros como elemento chave para arrancar votos. Outras matérias, tratavam de denúncias não comprovadas de corrupção feitas por funcionários do casal. A estratégia para a divulgação destas matérias segue um esquema bastante comum, elas são inicialmente disponibilizadas por sites sem credibilidade ou em redes sociais e mais tarde repercutidas por outros de maior visibilidade. 

Ainda durante o primeiro mandato, foram inúmeras as vezes em que matérias sobre a jornalista foram usadas como ferramenta para desestabilizar o esposo politicamente. Seja questionando a relação afetiva estabelecida entre ambos - a denominação "A bela e a fera" não é gratuita -, seja aplicando a ela somente, crimes de corrupção, como foi o caso da Granja.  Este dado é significativo, pois torna evidente o processo na qual ela esteve e está mergulhada: Bório pode ser um elemento para desequilibrar a atual gestão, prejudicando não somente a imagem do ex-esposo e atual governador, mas toda a cúpula administrativa. A jornalista passou a ser tratada pela oposição como uma "bomba", para usar um termo amplamente aplicado pela mídia local, e passou a ser cotada como um instrumento para desestabilizar a gestão cujos bastidores conheceu profundamente. Levarmos em conta este fato nos ajuda a entender o porquê de tanto investimento de seu ex-marido em colocá-la no ostracismo, a partir da construção simbólica de Pâmela como louca, desequilibrada e interesseira. 

Atentemos para o caso do assassinato do servidor Bruno Ernesto, que pode ter relação com ao escândalo de corrupção do Jampa Digital. Em abril, mês que inaugura o turbilhão de acontecimentos dantescos em que esteve envolvida,a mesma fez declarações sobre o episódio do assassinato do servidor públicoFoi a vez de se instalar a situação reversa, agora governador e aliados promovem o mesmo que combateram nos tribunais eleitorais. 
O caso atinge diretamente o esposo e recupera o episódio de assassinato classificado pela polícia estadual como um latrocínio. Bório insinuou possuir informações sobre o caso Bruno Ernesto e o Jampa Digital

O comentário reabriu não só as preocupações em torno do caso de assassinato, mas também o conflito com a gestão estadual, culminando em um episódio controverso em que a jornalista e a babá da criança trocam acusações de agressão. O episódio de agressão em que ambas se envolveram teve um final bastante trágico para a jornalista, que entre outras situações foi levada coercitivamente pela polícia, entidade que como outras, obedece ao poder político do chefe estadual. 

Há aproximadamente 120 dias, a partir de uma decisão judicial, Pâmela Bório perdeu a guarda do seu unigênito para o ex-marido e atual governador da Paraíba e foi proibida de comentar detalhes do processo em andamento em qualquer meio de comunicação. Os detalhes da batalha jurídica que travam entre si correm em segredo de justiça e por isso são desconhecidos do grande público. E por serem de ordem privada é melhor que assim permaneça. Mas o estarrecedor processo de desconstrução simbólica de Bório como mãe é anterior e público, acompanhado, compartilhado e apoiado por vários paraiban@s. E, sem dúvidas, é elemento responsável pela situação de violência a qual está submetida na atualidade.  

Os bastidores de um furo jornalístico 


No dia 04 de junho de 2015, o portal Paraíba Já "deu" um furo jornalístico publicando na integra o B.O. assinado por Indaía Pires, babá do filho da jornalista e do governador, que afirmava ter sofrido agressões e uma tentativa de "homicídio". O editor do portal na época e autor da matéria comemorou o furo jornalístico em pleno feriado. "Por que dá para dar furo de reportagem no feriado SIM", escreveu em sua página pessoal no facebook. 

Poderíamos encarar como positivo tal "ineditismo" se desconsiderássemos o vínculo direto do veículo que o publicou com o Partido Socialista Brasileiro, que é presidido na Paraíba pelo atual governador. E talvez se não levassemos em conta os indícios de que a celeridade dos órgãos estaduais foi bastante diferente, prejudicando a ex-primeira dama e favorecendo a versão apresentada por Indaia Pires, que no Boletim de Ocorrências declarou ter sido socorrida por assessores do patrão, Ricardo Coutinho. 

O portal deu sequência a cobertura nos dias posteriores. No dia 5 de junho, publicou laudo da GEMOL, confirmando a versão da Babá. No dia 6 de junho, publicou declaração do secretário de Comunicação Luís Tôrres: "A SECOM não tem tempo para confusões pessoais", desmentindo as acusações de Pâmela de que havia uma investida conjunta da secretaria em divulgar somente a versão contrária a ela. A jornalista apresentou os banners de apoio do governo estadual nos portais que publicavam as notícias parciais. 

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Por fim, o Portal Paraíba Já acrescentou uma matéria que apontava um possível encontro de Pâmela Bório com Ruy Carneiro, presidente do PSDB, partido adversário. E no dia 7 de junho, concluiu com a postagem "Sereno, o governador paraibano tirou fotos com pais e crianças que assistiam ao espetáculo infantil", cobrindo a ida do governador ao teatro com o filho, conforme podemos acompanhar nas imagens abaixo. 

A abordagem é exemplar do comportamento da mídia patrocinada pelo governo: de um lado as matérias apontavam massivamente a ex-primeira dama como alguém que "frequentemente retornava as páginas policiais", como desequilibrada, homicida, fútil e amante de adversários políticos do governador e de outro os mesmos portais propagavam a imagem de Ricardo Coutinho como bom pai, que mesmo com agenda turbulenta "serenamente" acompanhava o caçula ao teatro, alheio a confusões. 

A abordagem extremamente machista teve impactos significativos no desenrolar dos fatos e na percepção dos atores envolvidos. O mesmo portal publicou no dia 11 de junho uma entrevista com Indaia Pires. A primeira frase da matéria assinada pelo jornalista William de Lucca, o mesmo que comemorou o furo anteriormente, inicia da seguinte forma: "preconceituosa, desequilibrada e sem condições psicológicas de cuidar do próprio filho". A reportagem continua descrevendo o que hipoteticamente, segundo a versão da babá em situação de conflito, seria o comportamento da mãe da criança: "não dava atenção para a criança e que não dava assistência básica necessária ao pequeno"; "sua ex-patroa está louca"; "o amor que demonstra pelo filho é uma máscara que usa na rua"; e que a "jornalista não tem condições de criar o próprio filho". 

A entrevista audiovisual deixa ainda mais claro as perguntas que foram dirigidas a entrevistada: "Pâmela era uma boa mãe?", "Ricardo apesar de ocupado é um bom pai?". A entrevista expõe demasiadamente a criança e o sofrimento que atravessa em virtude do processo de separação dos pais. Além disso, como em todas as outras ocasiões a voz é uníssona e díspar, não se abre espaço para a versão contrária. E para além disso promove a relação assimétrica típica de situações de alienação parental. 

As perguntas sugerem um caminho cujo percurso é somente apresentá-la como uma péssima mãe. Em virtude do episódio, com a imagem pessoal e profissional abalada, a jornalista passou a não mais trabalhar diante das câmeras, a partir de uma decisão da cúpula da emissora, deixando parcialmente de desenvolver suas atividades profissionais por um certo período

Bom, não é preciso destacar mais que a abordagem supera qualquer nível de violência. Um dado importante de frisar é que a postura que relatamos do Portal Paraiba Já não é gratuita. Trata-se do porta-voz do PSB da Paraíba e em seu conteúdo não há uma única matéria que contrarie os interesses da atual gestão estadual, isto é, não há nenhuma matéria em que aspectos da gestão estadual são cobertos negativamente (desvios de verba, escândalos de corrupção, denúncias de obras paradas). Nas eleições de 2010, por exemplo, o portal foi multado em 5 mil reais por propaganda irregular em favor da coligação Paraíba Unida, do governador Ricardo Coutinho. 

A relação é mais próxima do que imaginamos e supera uma possível afinidade ideológica. A empresa que gere o portal chama-se "Feed Back Comunicações LTDA" (05.054.484/0001-75), cuja sócia administrativa é a jornalista Karla Danyela Alencar Fernandes. Em 2014, Alencar recebeu representação do Ministério Público Eleitoral por doação a campanha acima do limite permitido, com previsão de multa no valor de 18 mil reais. Atualmente, é secretária de comunicação do PSB de João Pessoa. Seu pai, Ronaldo Barbosa, é o presidente do partido no município. 


O resultado da cobertura irresponsável 


Ironicamente, a retirada da guarda do filho de sua mãe não se tornou um furo jornalístico para os portais financiados pelo governo, certamente pelos danos que geram para a imagem do pai. A partir da decisão judicial, a voz de Pâmela Bório passou a ser ainda mais silenciada nas matérias que se relacionavam diretamente a ela. Somente o portal Expresso PB noticiou o caso e o blog daquele que sempre colaborou para macular a imagem da então esposa do governador, Blog do Dércio. 

Surgiu então a carta do filho mais velho, Rico Coutinho, dirigida a sua ex-madrasta, numa especie de homenagem pública ao pai. No facebook, Coutinho Filho apresentou a versão da família para os fatos adotando o dia dos pais como mote. Enquanto isso, Ricardo Coutinho aproveitou para se auto-homenagear, falando em um vídeo curto no facebook sobre a sua vida como pai dedicado em meio a uma enxurrada de comentários contrários e a favor. A carta de Rico manteve coerência com o espectro de cobertura midiática até então e usou, entre outros, os termos "contornos de loucura" para se referir aos apelos da mãe do irmão pela perda do direito de guarda compartilhada igualitária. Bório respondeu com declarações bastante pesadas contra o ex-enteado, apontando-lhe a situação em que na campanha eleitoral anterior ele mesmo havia processado o pai para garantir-lhe sua pensão e tratamentos médicos. Falando de sua mãe recentemente falecida e problemas de saúde com os quais ele convive.    


A cobertura assimétrica persistiu diante de tão grotesco e novelesco conflito familiar. Somente a carta de Rico foi abordada pelos portais locais. Os termos adotados por ele foram amplamente repercutidos. A avalanche de matérias questionando a sua saúde mental se associam a um fenômeno chamado Gaslighting. Este tipo de abuso psicológico resulta da distorção de informações por parte do abusador que buscam levar a vítima a duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade. Diante da discrepante quantidade de matérias em circulação na mídia e dos comentários nas páginas sociais de ex-familiares, Pâmela publicou um depoimento em que busca demonstrar para o seu público sua capacidade de criar o próprio filho, apontando o seu investimento em saúde física e mental e também a longevidade de sua vida profissional. O papel dos veículos de comunicação, especialmente portais políticos, neste episódio é singular da relação que a mídia pode exercer para neste tipo de abuso comum em ciclos de violência. 

A tréplica de Rico à madrasta "coincidiu" com a divulgação de gravações clandestinas de declarações de Pâmela Bório. Editadas, as falas sugeriam relações suas com o principal adversário de Ricardo Coutinho, aliado até 2013, Cássio Cunha Lima. Somadas a insinuações de que ele é o atual responsável por sua sustentação financeira. A gravação foi divulgada pelo ClickPB portal que tradicionalmente faz oposição ao governo Ricardo Coutinho e repercutidas por aqueles que permaneciam no front, a partir de uma manchete pretensamente neutra "Portal revela que Pâmela tramou com Cássio"A estratégia para a divulgação destas matérias segue o mesmo esquema das campanhas eleitorais, agora sem dividir os portais entre situação e oposição. Inicialmente foi disponibilizada por site que aceitou a verba paga para divulgação de vídeo clandestino e mais tarde repercutidas por outros que já estavam envolvidos na defesa pessoal do governador. Quem fez as escutas? ou Quem gravou as ligações? ou Quem interceptou as mensagens de voz pelo whatsapp? Nenhum jornalista se responsabilizou pelo conteúdo. A prática criminosa é vetada pela lei 9.296/96, cuja pena é de 2 a 4 anos de prisão e multa.

Sobre o tema, Ricardo declarou em seu twitter "Por amor e proteção a um filho, tudo. Até mesmo o silêncio". A família e aliados iniciaram a campanha pela não exposição da imagem da criança envolvida no caso, campanha que contrasta com participação constante do garoto de apenas 4 anos na agenda política do pai. Uma campanha que contrasta com a própria campanha. Pâmela passou a contar as noites sem a presença de seu filho e sem informações sobre o seu dia-a-dia. Mais tarde, denunciou agressões praticadas por familiares do ex-marido contra ela. Com exceção, da TV Cabo Branco, que abordou o caso apresentando ambas as versões e do site Os intrometidos (formado por jornalistas e comentaristas de oposição), que apresentou apenas a versão de Pâmela, os portais envolvidos desde o princípio expuseram somente a versão apresentada pelo advogado do governador e divulgaram mais uma informação com o intuito de reforçar a imagem de "interesseira": a exigência de uma Land Rover como para rompimento do matrimônio. 

Ricardo não ficou calado, como anunciou. Em outubro, um episódio midiático ainda mais grotesco foi forjado. O comentarista político de Pernambuco, Magno Martins, publicou um vídeo no qual uma suposta mãe de santo declara ter recebido uma encomenda da morte de um homem por sua esposa. Gravada a contra-luz para que os traços do rosto da entrevistada não viessem a tona, o vídeo narra uma história ridícula e claramente fantasiosa. Uma mulher que aceitou pagar 25 mil reais em espécie para encomendar a morte do marido, levou até ela cuecas e fotos do casal (estranhamente, todas aquelas publicadas na internet) e ofereceu o sangue do filho para que o seu pedido fosse executado. 

Apesar de patético, o episódio foi imediatamente repercutido pelo governador nas redes sociais. Além de ser replicado pelos portais da Paraíba. 



Ricardo Coutinho aproveitou para apresentar-se como um homem religioso vilipendiado pelo episódio revelado pela mãe de santo, apoiando-se no Salmo 91. Para evitar problemas com as religiões de matrizes africanas declarou respeito a todas elas. O vídeo não poderia ser um exemplo mais grotesco de desrespeito a tais religiões. Primeiro pelo amadorismo, segundo por investir no preconceito em que tais estão mergulhadas associando a figura de uma mãe de santo à prática da magia negra. E não podemos esquecer o preconceito dirigido a naturalidade e a religiosidade de Pâmela, que é baiana e católica. E teve mais uma vez um crime de tentativa de homicídio atribuída a si. 

A matéria "coincidentemente" foi divulgada em pelo "blog do Magno", veículo parceiro do blog Luis Torres, até o fim de 2013, quando o blog de Torres foi suspenso, em virtude deste ter se tornado secretário de comunicação do governo.  


MACHISMO E MÍDIA 

É preciso refletir sobre a natureza da crônica política do estado da Paraíba, pensando suas vozes, o seu financiamento e principalmente a agenda que promovem. A parte significativa de nossos comentaristas políticos tem relação direta com a política através de assessorias, por exemplo. Há também os vários comentaristas políticos que recebem a partir de cargos comissionados no executivo estadual e municipais ou mesmo pelo legislativo. Há aqueles que tem familiares diretos que também são comissionados. 

O caso Pâmela Bório nos possibilita pensar nestes aspectos. Há um profundo revanchismo também, em virtude das declarações da jornalista contra os profissionais da mídia no passado. Mas para além do investimento financeiro e da forte dependência dos meios de comunicação das verbas publicitárias estaduais, o que já favorece um ambiente de instrumentalização política pueril como o que descrevemos, convivemos com o fato de que o comentarismo político paraibano é profundamente machista. Trata-se de uma mulher, de uma primeira-dama que falou, que comentou política, que se posicionou para além do marido. Este dado também conta. Falamos de uma mulher jovem bonita, casada com um homem considerado feio, mas rico e poderoso. O interesse pejorativo é sempre dela e nunca dele. 

Dos radiofônicos Anacleto Reinaldo e Fabiano Gomes ao digital Tião Lucena, somos fundamentalmente informados por jornalistas machistas e preconceituosos. Tião Lucena inclusive também desempenhou papel de centralidade na construção distorcida da imagem da jornalista, reproduzindo todas as matérias veiculadas com este intuito e outras de sua própria autoria. Tião assinou a página de política do jornal Já no passado, publica diariamente imagens de mulheres desnudas em seu site e tem uma trajetória profissional repleta de misoginia. Para se ter uma ideia do nível de seus comentários, confira este que ele proferiu em seu facebook na ocasião em que um ensaio da jornalista Pâmela Bório para uma empresa de eventos matrimoniais foi lançado.  


Referindo-se ironicamente ao fato dela estar usando um vestido de noiva. 

A maldade do comentário de Tião Lucena é face da sua postura machista. Mas quando este machismo se torna institucional? Já falamos sobre isto em outras ocasiões, mas você pode encontrar facilmente o reflexo institucional do machismo dos produtores de mídia quando a sessão "diversão" de um portal jornalístico local é composta somente de fotos de mulheres desnudas ou em situação vexatória, como é o caso do portal Giro PB, por exemplo.


GIRO PB - 16/12/15


E como fica Geni? 

O exercício jornalístico que abandone a ética e o respeito aos princípios da presunção de inocência, do respeito a dignidade humana e do contraditório é nocivo a sociedade. Mas falemos, sobretudo, do seu impacto na vida de uma das principais afetadas. Misoginia, gaslighting, preconceito financiados com a coisa pública. A mídia local como instrumento 
de exercício de poder de um homem sobre uma mulher. A violência simbólica contra Pâmela Bório existe. O poder de enfrentamento dela existe. Mas diante daquele exercido pelo ex-marido é infinitamente menor, não nos esqueçamos. 

A polarização política que se revela na cobertura midiática, também se revela nos apoios oferecidos à jornalista. Na Assembleia Legislativa, as Deputadas Daniella Ribeiro e Camila Toscano, que fazem oposição ao governador, convidaram-na para uma audiência pública, vetada pelo presidente Deputado Adriano Galdino, de situação. O intuito é muito mais expor o ex-marido e atual governador, do que de fato resguardá-la da atual condição de violência. Nenhuma entidade feminista atuante na Paraíba, em virtude da forte relação com o PSB e da relação de proximidade com a deputada feminista Estela Bezerra, se pronunciou sobre o tema. Há um grande medo no movimento de desfavorecer os interesses da atual gestão. Nem mesmo as entidades independentes se pronunciaram sobre o caso. Aliás, não custa perguntar resta alguma? Pâmela Bório é taxada como demasiado "reacionária" para merecer um mínimo exercício de sororidade.

Eis o meu. 

Janaine Aires é jornalista, doutoranda em Comunicação e Cultura pela UFRJ e integrante do Observatório da Mídia Paraibana. 

Janaine Aires / Autor

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