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O nosso jornalismo de guerra

Janaine Aires

Em 2015, oito jornalistas foram assassinados no Brasil. Seis deles no nordeste. Um na Paraíba. A concentração destes crimes na região aponta para os riscos do exercício profissional da comunicação nesta parte do país. Os casos registrados compartilham entre si várias características e a principal delas é a relação dos assassinados com a política. 

O caso paraibano também tem tal característica. O radialista Ivanildo Viana, apresentador do programa "100% VOCÊ", da rádio "Santa Rita", foi assassinado após sair do trabalho em fevereiro. A rádio em que ele trabalhava tem como sócio o deputado federal Damião Feliciano (PDT). Médico cardiologista, Feliciano apresenta o programa "A voz do coração" nas emissoras de sua propriedade há anos. Ao lado da esposa e vice-governadora do estado da Paraíba, Lígia Feliciano, também detém a concessão da rádio "Panorâmica FM", em Campina Grande. 

Prestes a completar um ano, o assassinato de Ivanildo Viana ainda não foi elucidado. 

Somando a concentração regional com tal fato, a associação de tais crimes ao coronelismo é imediata. Esta perspectiva, além de preconceituosa, pois reforça a ideia de que a política nordestina é sinônimo de coronelismo, é um dos principais impeditivos para percebermos outros fatores de risco para o exercício da profissão no país. 

Não há dúvidas que a concentração da radiodifusão nas mãos de políticos é responsável, sobretudo, pelo permanente estado de beligerância que caracteriza o dia-a-dia dos profissionais de comunicação. Afinal, mesmo que o calendário eleitoral esteja distante, a campanha em torno dos interesses dos seus donos é permanente. Tal realidade é facilmente percebida na paisagem radiofônica e audiovisual brasileira, mas não está ausente dos meios impressos e virtuais, que se complementam e integram ambientes similares de produção da informação. E, sobretudo, não é uma exclusividade da região nordeste. 

Porém, os impactos da concentração política dos meios ultrapassam o controle de conteúdo e afetam diretamente a estruturação econômica da comunicação no país. A estrutura midiática brasileira é profundamente marcada pela fragilidade econômica dos negócios de mídia. Isto acontece, principalmente, porque a motivação política supera, em muitos casos, a viabilidade econômica dos empreendimentos. Assim, parte significativa da produção da comunicação no nosso país, nas cinco regiões, é extremamente frágil e dependente da verba pública. As regiões Norte e Nordeste são aquelas em que tal fragilidade é ainda mais expressiva.  

O resultado disto é que nestas regiões o exercício profissional da comunicação é mais precarizado. O assassinato de 8 jornalistas no ano de 2015 é uma das evidências perversas desta realidade. A dependência política e econômica dos negócios de mídia implica, sobretudo, na desvalorização da categoria, resultando em baixos salários e sazonalidade empregatícia (condicionada aos mandatos, gestões e dinâmica dos gabinetes políticos). 

Dado significativo sobre a trajetória profissional dos jornalistas assassinados é a acumulação das funções de jornalista/radialista e a assessoria de imprensa de políticos. Uma demonstração da incompatibilidade política do exercício das duas funções. Mas os impactos desta realidade são ainda maiores. Da fragilidade financeira, decorrem a fragilidade estrutural e a insegurança jurídica, o que caracteriza também os casos que marcaram 2015. São profissionais que enfrentavam sozinhos o peso do seu trabalho, seja no rádio ou com blogs na internet. 

O que implica em ainda mais vulnerabilidade. Mas no contexto de beligerância política, que caracteriza a nossa mídia, os jornalistas são alvos principais da violência de adversários de quem os emprega ou mesmo de seus próprios empregadores, quando o laço de confiança se fragiliza por qualquer motivo. A cobrança ao jornalista vem na exigência de silêncio ou do cerceamento da sua liberdade ou é mais alta quando lhe cobra a vida. Não é possível atribuir tal vulnerabilidade somente à política, o crime organizado também atua como algoz. A fragilidade econômica do exercício, no entanto, colabora com a exposição demasiada dos profissionais ao risco.     

Combater estas fragilidades é fundamental para a consolidação de uma ambiente de liberdade de expressão e imprensa. Fica cada dia mais claro que os meios de comunicação são ferramentas indispensáveis para a ação política de seus donos. Seja no controle da agenda de debates locais, seja na propagação positiva de sua imagem e de seus aliados, mas especialmente por ser um meio de combate simbólico a adversários. Como é de se imaginar, tal ambiente é extremamente conflituoso e o controle da produção de informação é uma das armas presentes nesta contenda. É óbvio que o elo mais fraco desta frente é o jornalista.


A consequência social também é preocupante. A conjuntura resulta em um tipo de exercício jornalístico limitado por tais interesses. O que faz com que em grande parte do país, a população seja basicamente informada por mídias de situação ou oposição. A tradução desta guerra são as coberturas bastante polarizadas e que não necessariamente visam o interesse público. Este tipo de exercício jornalístico pode resultar também em uma modalidade de instrumentalização criminosa do exercício profissional, quando se adotam mecanismos de apuração ilegais, por exemplo. Ou quando envolvem extorsão de possíveis prejudicados pelo que pode ser divulgado. Por isso, é indispensável debater permanentemente os vínculos que se estabelecem entre a mídia e a política no Brasil, inclusive para compreendermos o universo de riscos da profissão.

Janaine Aires é jornalista, doutoranda em Comunicação e Cultura pela UFRJ e integrante do Observatório da Mídia Paraibana. 

Janaine Aires / Autor

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