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Entre Shoppings e Marquises: afinal, que cidade queremos?

Janaine Aires




As relações entre mídia e a concepção de cidade são muito tênues. Desde a ideia de aonde devemos ir, como devemos ir, o que devemos pensar sobre cada uma das regiões, seus moradores e seus aparelhos. Trata-se de uma relação tão singular que poucas vezes nos damos conta dela. 

Na Paraíba, um fato curioso desta relação é que ela começa pelos nomes das emissoras, que reproduzem simbolicamente a geografia das cidades e do estado. Embora não se trate de uma exclusividade nossa, é interessante pensar que temos uma TV chamada Borborema, cobrindo a região de Campina Grande;  uma rádio que leva o nome do Vale do Piancó inteirinho, mas sua abrangência se resume à cidade de Santa Luzia; uma emissora de TV que leva o nome do bairro do Cabo Branco da cidade de João Pessoa, mas abrange todo o estado da Paraíba; uma emissora de rádio cujo nome se inspira no rio onde nasceu a capital, a  rádio Sanhauá; sem esquecer daquela que concorre, como na geografia da cidade, com a TV Cabo Branco, e leva o nome do bairro vizinho: a TV Tambaú. 

Mais curioso ainda é pensar que uma única rua de João Pessoa aglutine, mesmo que simbolicamente, três bairros ricos e litorâneos da capital: Cabo Branco, Tambaú e Miramar. Apesar de estar localizada no bairro Tambiá, centro da cidade, a rua Walfredo Leal concentra parte significativa das emissoras de toda a capital, subvertendo mais uma vez a geografia. 

A comunicação na Paraíba abriga ainda outra curiosidade: logo ali perto, na rua D. Pedro II, estão mais duas emissoras de TV, e uma delas, até algum tempo atrás, se inspirava em um ponto cardeal para transmitir a ideia de credibilidade. Credibilidade que não viria se o ponto cardeal escolhido fosse o Sul, o Leste ou talvez o Oeste, pois somente "O NORTE" pode expressar tal noção. Agora, sob uma nova gestão, o nome escolhido é TV Manaíra

Para além de curiosa e singular, a relação entre mídia e concepção de cidade adquire contornos muito sólidos do ponto de vista social. O dado simbólico de que as mais abrangentes emissoras da cidade não adotam nomes de bairros periféricos como Grotão e Valentina Figueiredo (diga-se de passagem, bairro assim batizado em homenagem à mãe do ex-presidente general João Figueiredo), por exemplo, é absolutamente significativo. Por um lado, denotam a distância de representatividade de partes da cidade na mídia. De outro, a escolha de uma determinada parte geográfica para se nomear as emissoras indica a natureza da comunicação que ali será construída. Falamos, portanto, da conflituosa relação entre centro e periferia. E, sobretudo, que este conflito e muito mais que simbólico.  
  
MANAÍRA E INTERMARES  

A natureza material desse embate se revela nas telas, mas é sentida principalmente nas ruas. O Rio de Janeiro é um bom exemplo disso. A cidade vem sofrendo inúmeras alterações em virtude das recentes obras para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas que já deslocaram 75 mil pessoas em seu processo de gentrificação. A invisibilidade nacional da questão é reflexo direto da relação perversa entre mídia e concepção de cidade. A Rede Globo, através da Fundação Roberto Marinho, é responsável pela construção de obras monumentais que modificam o cenário da cidade e reinventam novos cartões postais, tais como o Museu do Amanhã, o Museu da Imagem e do Som e o Museu de Arte do Rio, cujas cifras ultrapassam as centenas de milhões de reais. A interferência não é novidade e é sentida desde a participação da família Marinho no processo de demolição do Palácio Monroe ou ainda a pressão econômica e simbólica do grupo para transformar o Parque Lage, hoje público, em um condomínio residencial privado, na década de 1960. 

Respeitando-se as proporções, também vivenciamos a articulação direta entre a mídia, a concepção e a construção da cidade. Na Paraíba, a disputa política de ocupação urbana é atravessada pela questão midiática. O que podemos facilmente perceber quando observamos a disputa entre dois grupos empresariais que competem diretamente sobre a construção de empreendimentos e tem os meios de comunicação como instrumentos-chave. Em curso, a guerra entre o Grupo Marquise, dono da TV Tambaú e da rádio 102 FM, e o Grupo Shopping Manaíra, que, curiosamente, leva o nome de outro bairro da capital, mistura intensas lutas no judiciário, legislativo e, principalmente, no executivo local com pitadas de batalhas na TV e no rádio.  


A disputa envolve a execução do projeto do Shopping Intermares, do grupo Marquise. Em mais uma pegadinha geográfica, o empreendimento, apesar de não existir física e concretamente, possui página no Facebook e material de divulgação no google, constando, pasmem, endereço e horário de funcionamento, garantindo a existência no mundo virtual. A obra seria construída no bairro mais rico da cidade de Cabedelo, Intermares, vizinha a João Pessoa, e ao bairro contíguo de Manaíra. O Shopping Intermares fere diretamente os interesses do concorrente, o grupo Shopping Manaíra, já que potencialmente dividiria o público consumidor local.  

A polêmica se iniciou em 2012, quando oito dos 10 vereadores da cidade, contrariando a decisão da prefeitura, comandada na época por Zé Régis, votaram contra a construção do Shopping Intermares. A emissora Tambaú iniciou uma intensa campanha para reverter tal decisão, associando os vereadores e autoridades contrários à obra como responsáveis pelo atraso de Cabedelo, em razão da recusa a um empreendimento que resolveria os problemas da localidade. Repetindo, à exaustão, que o valor investido na obra seria de R$ 200 milhões e o número de empregos gerados ultrapassaria os milhares. O discurso não tardou para se transformar em "clamor popular". A TV Tambaú elaborou a agenda de pressão da mídia sobre o poder legislativo municipal. 

Inicialmente, classificou a decisão como inexplicável, surpreendente e lamentável: "Vereadores de Cabedelo barram construção do Shopping Intermares" 12/09/2012; mais tarde, a partir da conclamação dos programas da emissora, noticiou as reivindicações da população: "Multidão se reúne em Cabedelo para defender construção do shopping Pátio Intermares" - 13/09/2012; No dia seguinte, após intensa pressão midiática, abriu espaço para a votação e a aprovação do empreendimento, acompanhando com links ao vivo"Caso de Polícia: Vereadores de Cabedelo aprovam construção do Shopping Intermares" - 14/09/2012; e, por fim, reforçou o papel do "povo" para a construção do shopping: "Pressão Popular faz vereadores votarem construção do Shopping Intermares" - 17/09/2012. 




Em 2014, a Câmara Municipal de Cabedelo voltou a apreciar a matéria. Desta vez, o empreendimento foi desautorizado, a partir de uma emenda do então vereador Artur Cunha Lima Filho (PRTB), empossado deputado estadual no ano seguinte. Nenhum dos programas locais da emissora esqueceu o assunto, claro: "Shopping Pátio Intermares pode levar lazer, emprego e crescimento ao município de Cabedelo" e "Carreata marca noite de protesto em Cabedelo por construção do Shopping Pátio Intermares" (26/03/2014). Nestas matérias, a emissora reforçou o papel "transformador" da obra para os moradores pobres da cidade, que geraria emprego, lazer e turismo para os habitantes.  





"[repórter] Com a chegada do shopping Pátio Intermares a realidade dessa população teria uma melhora significativa/ São 6 mil empregos que estão sendo rejeitados pela Câmara de vereadores/ E serviços como acesso a bancos, lojas e espaços de entretenimento/ Tudo acomodado num ambiente de 95 mil metros e com segurança para os visitantes/ Dona Olidina tem 74 anos e há 60 anos vive em Cabedelo/ Com toda a experiência acumulada ela diz que o vereadores estão esquecendo a verdadeira missão de um gestor:/
[sonora] Quem tem barriga cheia, não se lembra de quem tem fome. Aqui precisa de emprego! Taí uma neta minha desempregada. Tem um bocado sem trabalhar. As meninas moças e cheias de vida, mas não tem em que trabalhar. Tem muitos que não tem o que fazer e vai fazer o quê? Vai andar, virar, mexer e fazer o que não tem de fazer, né? Por que não tem do que se ocupar. O shopping aqui era uma grandeza aqui para Cabedelo, aqui dentro. Aqui não tem trabalho para ninguém.
[repórter] Além de emprego e lazer, a construção do shopping vai atrair ainda mais receitas para o município/ Claúdio acredita que a vida da população vai melhorar/ Pois todo o dinheiro gasto ia voltar em benefícios para os moradores." 


As matérias são nada mais, nada menos que material publicitário do empreendimento e manipulam descaradamente as condições de vida dos moradores da região em função dos interesses do grupo ao qual a emissora pertence, querendo fazer crer que as zonas periféricas e pobres da cidade são o público alvo do shopping e não as madames ricas de Intermares, Manaíra e Tambaú. E que os lucros ficarão na localidade e não seguirão para os cofres do grupo empresarial que tem sede em Fortaleza e atua em 14 cidades de oito estados diferentes. 

Como parte da estratégia de convencimento, a emissora passou a cobrir negativamente a construção da obra do shopping concorrente que se expandia para a zona sul da cidade, com um empreendimento repleto de controvérsias e resultado de uma negociação público-privada: o Shopping Mangabeira. O governador Ricardo Coutinho doou o terreno onde o empreendimento seria construído em troca da reforma da Academia de Ensino da Polícia Civil do Estado da Paraíba, no bairro do Geisel (mais uma homenagem a um general presidente)Em março de 2014, um protesto dos trabalhadores da obra executada "a jato", foi noticiada extensamente pelos programas da emissora: "Trabalhadores de shopping em Mangabeira protestam por segurança no trabalho" - 07/03/2014


Em 2015, outro ator entrou na questão. O TCE interferiu na disputa, liderado pelo pai do vereador responsável por criar empecilhos na câmara de Cabedelo para a instalação do empreendimento em 2014, o ex-deputado Arthur Cunha Lima tornou-se presidente do Tribunal de Contas do Estado, mas foi outro membro da família quem teve papel decisivo no embargo e na posterior liberação da obra, em 2015. Com a emenda apresentada na Câmara Municipal da cidade, o TCE, através do conselheiro Fernando Catão, parente da família Cunha Lima, desautorizou a obra, por meio de uma medida cautelar, no mês de maio. Autorizando-a dois meses depois.

A disputa política teve episódios controversos e polêmicos. A licença para a obra foi desaconselhada pela Associação de Proteção Ambiental (APAM), já que o Shopping seria construído na Mata do AMEM, unidade de conservação federal. A Associação com sede na cidade de Campina Grande foi acusada de falsificar o próprio endereço no processo que visava embargar a obra. Um "equívoco" teria levado a Associação a usar, segundo o Portal Paraíba Agora, a sigla, o papel timbrado, o endereço e um e-mail da Associação Paraibana de Amigos da Natureza, localizada em João Pessoa, e liderada pela ex-vereadora e ambientalista Paula Frassinete.

Nessa altura, ficavam claras a quantidade de interesses na execução ou embargo da obra e, sobretudo, as origens dos atores envolvidos na disputa. A circunstância mostra mais uma vez o embaralhamento da geografia e a mistura política dos interesses de três cidades distintas: João Pessoa, Campina Grande e Cabedelo. Entre maio e agosto de 2015, a estratégia foi apontar as irregularidades do principal concorrente: "Anunciada mais uma ampliação duvidosa do Manaíra Shopping" - 22/05/2015, o comentarista político da emissora Tambaú concluiu que "a Paraíba é pobre por conta dessa mesquinhez que impede a construção de grandes empreendimentos como o Shopping Intermares" e denunciou a expansão de 23 mil metros do shopping concorrente; "Shopping Manaíra responde a ação penal" - 15/07/2015, denunciando os impactos ambientais do adversário; "Na CMJP, vereadores criticam construção de acesso do Manaíra Shopping" - 14/08/2015, complementada com comentário, debatendo a repercussão na Câmara Municipal de João Pessoa da abertura de uma nova saída do estacionamento. 


Não há dúvidas de que as denúncias realizadas pela TV Tambaú contra o Shopping Manaíra prestam um importante serviço público de difusão da informação. Afinal, observe-se que, no pequeno mercado de mídia local, o Grupo Shopping Manaíra é um importante anunciante. O problema é que não é necessariamente o interesse público que está em jogo. Seria inocência e ingenuidade acreditar que o jornalismo da emissora Tambaú, neste caso específico, não respondesse aos interesses do grupo empresarial ao qual pertence.

Em 1982, o Grupo Marquise foi a empresa responsável pela construção das 1013 casas que formam o bairro Valentina Figueiredo. E desde 1991, através da TV Tambaú, é parcialmente responsável por construir simbolicamente o imaginário que temos daquele canto da cidade: Jovem é assassinado em comunidade do Valentina FigueiredoCriança de 12 anos é assassinada no Valentina; Duplo Homicídio em ValentinaMulher é encontrada morta no ValentinaJovem é assassinado na Comunidade Muçu Magro em via pública e moradores acionam a PM.

Um imaginário sangrento e doloroso, como se pode constatar dia-a-dia. Talvez, por isso, a empresa tenha preferido homenagear Tambaú ao invés do periférico bairro que criou. 



GOVERNADOR ROBERTO SANTIAGO





Se de um lado temos uma produção jornalística engajada em apontar as irregularidades do grupo adversário, de outro temos o mesmo engajamento voltado para apontar o empreendimento do grupo ao qual pertence sem qualquer problematização crítica. 

As perguntas que ficam são: mas, afinal, qual é a cidade que queremos? Qual o modelo de cidade que se disputa? 

Em agosto de 2015, o governador Ricardo Coutinho (PSB) inaugurou o Trevo de Mangabeira, 10 meses após o lançamento oficial do Shopping Mangabeira.  A interrupção do trânsito no local foi uma importante estratégia de marketing. Visto que, para entrar ou sair do bairro, durante toda obra, era preciso dar uma volta contemplativa no shopping que se erguia ali. 

A obra facilita o acesso à Zona Sul da cidade em especial ao bairro Mangabeira que abriga 100 mil habitantes e, uma vez concluída, facilita também o acesso ao shopping que está localizado na mesma via, por isso a ironia da página hipster pessoense, que agradece ao dono do shopping tratando-o como "governador"

A parceria público-privada entre o governo de Ricardo Coutinho (PSB) e Roberto Santiago já havia acontecido quando o político era o prefeito da capital. Naquela ocasião, a rua de acesso ao Shopping Manaíra foi alargada, permitindo a construção da central de refrigeração do shopping no lado posterior da via. A fina ironia da página de humor não nos deixa esquecer o episódio em que, atendendo aos interesses do grupo empresarial, a prefeitura de João Pessoa tentou desapropriar o aeroclube vizinho ao Shopping Manaíra sob o nobre pretexto de ali construir um parque público. A pressa da prefeitura era tamanha que, após uma liminar da justiça, ou seja, uma decisão provisória e que seria revogada horas depois, a pista de pouso do aeroclube, que completava 50 anos, foi destruída por tratores que trabalharam durante toda a madrugada. O episódio escandalosamente anti-democrático ganhou repercussão nacional. Havia à época uma negociação para a venda do terreno para outro grupo empresarial que desejava construir um shopping no local, mais uma vez contrariando os interesses do aliado político imediato. O aeroclube se transformará no Parque Linear Parahyba.  O projeto foi lançado pelo pré-candidato a prefeitura pelo PSB, João Azevedo, que é o atual secretário de infraestrutura do estado. O caráter da obra é positivo, mas não podemos perder de vista a natureza do processo político em que sua intenção foi gerada. 

O Shopping Manaíra foi construído em uma área de preservação ambiental, interferindo diretamente no leito do rio Jaguaribe que corta a região e o separa do bairro São José, formado por habitantes originalmente deslocados do bairro de Tambaú em virtude da construção do hotel homônimo ao bairro e que é cartão postal da cidade, na década de 1960. O bairro São José, espremido entre o shopping e a margem do rio é criminalizado frequentemente pela mídia e a localidade é repleta de conflitos. O embate é tão intenso que organizações dos moradores do bairro de Manaíra já solicitaram a construção de muros para isolar a comunidade e impedir a livre circulação de seus habitantes.

Em virtude do crime ambiental que cometeu, o shopping foi obrigado pela justiça a murar a mata do Amém, a fim de evitar que ela fosse degradada. Curioso é que a mata, como já apontamos, é aquela que será parcialmente destruída para a construção do shopping concorrente.   

Há um modelo de cidade que está em disputa permanentemente. Como as emissoras locais, os shoppings também adotam bairros, regiões e referências à cidade como inspiração para as suas denominações. Os shoppings MANAÍRA, MANGABEIRA, TAMBIÁ, SUL, CIDADE e o futuro shopping INTERMARES evidenciam que está sendo construída uma nova cidade, uma outra João Pessoa, uma nova Cabedelo. Mas shopping não pode ser bairro, não é espaço público, não é bem público. 

O modelo de circulação é voltado para o consumo, o olhar para as vitrines, o clima e a ausência de janelas para que se esqueça do tempo e do espaço em que se está. O Shopping Intermares não é em nada diferente do Shopping Manaíra. Todo shopping é igual. Igual pelo modelo de acesso que cria, igual pela degradação ambiental que promove, igual pela padronização do consumo e do acesso à cultura, igual pela criminalização da população que não tem dinheiro para comprar, igual pela precarização do trabalho. É preciso desmistificar a perspectiva que inventa que tais empreendimentos podem promover a "cidadania" e/ou ampliar o Direto à cidade. 

TRANSFORMAÇÃO DA CIDADE

A cidade de João Pessoa e a região metropolitana atravessam um período difícil no que se refere à especulação imobiliária e às obras que alteram a cidade. Nosso principal cartão postal, o Parque Sólon de Lucena, é palco de uma grande transformação urbanística marcada por escândalos de corrupção e deszelo à coisa pública e ao meio ambiente. Recentemente, uma CPI foi solicitada na câmara por 10 vereadores da cidade para averiguar possíveis irregularidades na execução da obra que pode ter sido usada para desviar 10 milhões de reais.

O crescimento vertical da cidade é gritante, apesar das imensas áreas ainda não ocupadas, como é possível perceber pelo impactante e sensível "Adiós, Jampa Vieja", dirigido por Virgínia de Oliveira Silva. 

As implicações dessa transformação são muito sérias. E pouco pensamos no trânsito, no saneamento, na coleta de lixo e na sustentabilidade deste modelo. Aos poucos, a cidade pacata que por anos se vangloriou por ser a mais verde do país vai dando adeus à identidade feliz que construiu e consolidou por aí. Em troca, assume um falso modelo de desenvolvimento e pouco discute os riscos que tal escolha ocasiona. 

Quando vamos parar para pensar a cidade? Quando discutiremos a fundo questões como: a conjuntura em que as passagens dos transportes coletivos administrados pelos setores privados, a partir de concessões públicas, estão cada vez mais caras, o que multiplica pelas ruas os carros e as criminalizadas mobiletes cinquentinhas; o distanciamento da periferia do acesso a bens culturais, pela ausência, dentre outras, de circulação de linhas de ônibus fora do horário de trabalho; o fato de as ciclovias estarem concentradas na zona litorânea sendo, portanto, pensadas e voltadas para os moradores ricos e para ao mero uso recreativo da bicicleta (enquanto, por exemplo, os trabalhadores ciclistas do Rangel morrem atropelados); o excesso de carros, enchendo as ruas  e calçadas nos conformando com os engarrafamentos e a falta de mobilidade pedestre e urbana; o crescimento do mercado de drive in, perceptível desde o surgimento de padarias como a do bairro do Bessa, em que não é preciso se descer do automóvel para se comprar o pão nosso de cada dia, até o "romântico" cinema drive-in promovido pelo poder público e festejado pela juventude motorizada?; o que falta realmente para que nos preocuparmos com o paredão de arranha-céus que se ergue sem limites no bairro do Altiplano?   

Em todo o Brasil, o debate em torno do direito à cidade vem ganhando espaço. Na Paraíba, já caminhamos em torno desse debate com o exemplo do #OcupaPortodoCapim, #OcupaPavilhãodoChá, o movimento Varadouro Cultural e as ações de cultura do Castelo Branco (mais uma referência a um ex-presidente general do Brasil), que aos poucos vêm apagando a homenagem à ditadura militar que nomeia o bairro e seus aparelhos públicos, como escolas, por exemplo. Mas muito dos processos ainda nos escapam as mãos. 

Infelizmente, nenhum destes movimentos é tão forte quanto o protagonizado pela mídia local. Que sutil, diária e permanentemente constrói uma concepção de cidade, diretamente atravessada pelos seus interesses. 
  • Para quê a TV Cabo Branco questionaria os sucessivos aumentos de passagem, se a crescente venda de automóveis a interessa diretamente, já que a empresa é dona de várias concessionárias? 
  • Com que objetivo a TV Arapuan discutiria a poluição sonora e o impacto ambiental da casa de shows Forrock, se é sua proprietária? 
  • Por que a TV Correio abriria mão dos comícios mensais que realiza nas periferias da cidade, junto com o poder público, se isso é fundamental tanto para fortalecer o seu projeto político de influência nos destinos dos cargos públicos e decisivos da cidade (e do estado, como veremos adiante), quanto para ampliar a atuação da Fundação Solidariedade, pertencente ao próprio Sistema Correio? 

À mídia, outorgamos o debate da cidade e também outorgamos o direito à cidade. 

É ela quem constrói a pauta em voga no dia-a-dia. São inúmeros os quadros voltados para a execução dessa agenda: o #MeuBairroéAssim e o Tambaú na comunidade, da TV Tambaú; A "Caravana da Verdade", que percorre mensalmente regiões periféricas da cidade com uma feira de serviços e shows, o "Cidade Alerta" e o Programa "Correio Cidades", importante instrumento da emissora para a produção de material institucional para prefeituras do interior, do Sistema Correio; A "BLITZ JPB", o Calendário JPB, que transforma @ repórter em um tipo de líder comunitário, da TV Cabo Branco; O "Cidade em Ação",  da TV Arapuan...  A comunicação pública tem seguido no caminho contrário. Com os quadros "Nosso Bairro" da TV Câmara e "Nossa Paraíba", da TV Assembleia. Ambos extremamente necessários, pois constroem comunicação sobre determinadas localidades da cidade com o olhar do poder público.  

Não podemos perder de vista que os interesses dos quais falamos têm dimensões indissociáveis: são ao mesmo tempo materiais e simbólicos. De um lado, a visibilidade dos problemas públicos passa pelo crivo do interesse dos grupos radiodifusores, de outro, é atravessada pelas exigências de ilustração visual, por exemplo, da produção midiática que engendra. 

Se os problemas da comunidade Boa Esperança, formada por moradores deslocados do lixão do Róger, não gerassem uma boa imagem e uma matéria bacana, dificilmente ganhariam o espaço público. O mesmo aconteceria se as reivindicações contrariassem, por exemplo, os interesses políticos da prefeitura/governo, que são os principais anunciantes dos veículos de comunicação locais. Assim, vamos construindo um preocupante apagamento do debate sobre o Direito à Cidade.  

Há quem resista: 



 MAS QUEM VAI CHORAR?, como pergunta o rap alagoano. Abra os olhos, como lembra os Menestreis Mc's.

Precisamos avançar bastante na defesa desse direito, a começar buscando respostas para as perguntas mais básicas: para onde vai o nosso lixo, será que o lixão do Róger acabou mesmo ou foi meramente deslocado? Qual a nossa malha de saneamento básico? A água que bebemos vem do Jardim Veneza, então, porque o esgoto corre a céu aberto no bairro e as ruas não são calçadas? De que bairros vêm os nossos vereadores e prefeitos? Por que os grupos EUA e Okaida se inspiram no conflito internacional para traduzir o conflito local?    

É hora de envolver os paraibanos em busca de uma resposta: afinal, que cidade queremos? 

Janaine Aires é doutoranda em Comunicação e Cultura, membro Peic/ECO-UFRJ e do Observatório da Mídia Paraibana. E-mail: janaineaires@gmail.com

* Com atualização às 15h30 de 14/03/2016, após o anúncio do nome da nova emissora da cidade TV Manaíra. 

Janaine Aires / Autor

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