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Geografia do sangue na comunicação da Paraíba

Janaine Aires
As relações entre mídia e violência adquirem, em todo o Brasil, contornos perversos. A paisagem audiovisual brasileira é profundamente marcada por conteúdos ligados a essa narrativa. E é a partir dela, por exemplo, que diversas candidaturas políticas, ligadas à mídia, são forjadas.

Na Paraíba, a relação entre mídia e violência também é definidora da programação da televisão, rádio e do jornalismo impresso produzido. O argumento de parte da mídia local para justificar a predominância desse conteúdo é que a mídia “não promove os crimes, apenas os noticia”. No entanto, é importante pensamos sobre o assunto e para que possamos entender que a violência não é somente reflexo da desigualdade social, mas é resultado direto de uma cultura. Cultura que a mídia local constrói e não se dissocia.

A mídia como alimento

Na década de 1940, o médico pernambucano Josué de Castro buscou chamar atenção para a questão da fome e da miséria. Estudou a geografia da fome e mostrou que o fenômeno não é resultado da ausência de alimentos, mas da estrutura econômica e social que nos organiza. Josué de Castro trouxe essa pauta para o debate, ganhando repercussão internacional. A ditadura militar tratou de colocar este tema no ostracismo, não só forçando o exílio de Castro, mas coibindo e criminalizando aqueles que ousaram falar da fome. A fome assim tornou-se um tabu.

A comunicação também é um tabu. Apesar da importância dela no nosso dia-a-dia, sempre que questionamos sua rotina produtiva, a pouca pluralidade de vozes, a concentração política dos meios, ouvimos como resposta máximas do tipo: “o controle remoto é o melhor controle. Está insatisfeit@, desligue a tv, mude de canal...”. A proposta nos faz esquecer que a relação entre público, a imprensa e a radiodifusão é estruturante, não adianta fugir dela. É preciso nos conscientizar que a Comunicação é um direito e a informação é um direito público.   

E não é à toa que, como a fome no passado, a comunicação seja um tabu. Ela também é alimento. Alimento de um tipo de sociedade. Através dela nos nutrimos política e culturalmente. É ela que responde por parcela significativa do que debatemos, do que ganha visibilidade e atenção, do que ouvimos e em quem nos espelhamos.

Os estudos de Josué de Castro mostravam, sobretudo, que não é somente a ausência de alimentos, mas que também pode-se morrer de fome, mesmo se alimentando. Ele fala das fomes parciais. Aquelas em que se morre de fome mesmo comendo diariamente, “pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome", destacou em uma de suas principais obras.

Padecemos dessa mesma fome parcial. Apesar de nos alimentarmos diariamente pela mídia, não nos damos conta que estamos todos mortos de fome. Faltam nutrientes para pensar a política, faltam nutrientes para conhecermos criticamente o mundo a nossa volta, faltam nutrientes que nos mostrem a riqueza da nossa cultura...

Morremos de fome principalmente quando nos damos conta que a nossa mídia se alimenta – e consequentemente nos alimenta – a partir da doentia utilização da imagem de corpos de vítimas como instrumento para conquista de audiência e lucro. A predominância dessa narrativa no nosso dia a dia tem resultados perversos. A triste constatação disso vem através de alguns exemplos simples, mas que pouco a pouco vão sendo naturalizados.

Quando pesquisamos nomes de bairros periféricos da capital como o Grotão, localizado na zona sul de João Pessoa, no Google, vamos nos deparar com imagens chocantes de pessoas esquartejadas, acidentados, baleados, esfaqueados, corpos em estado de decomposição... O mesmo acontece se pesquisarmos por outras localidades periféricas da cidade e também da região metropolitana.

Geografia do sangue





Ao colocarmos o nome “Santa Rita” no google, vamos encontrar as imagens da monja agostiniana canonizada, cujo corpo não se corrompeu e permaneceu intacto mesmo depois de 200 anos de sua morte. Junto às imagens do corpo santo, vamos encontrar centenas de outros oriundos da cidade que lhe homenageia. Estes, infelizmente, corrompidos pelo desrespeito praticado pela mídia contra a dignidade humana e pela utilização do corpo das vítimas como objetos para a busca pela audiência.

Essa situação se repete quando exploramos todas as regiões da Paraíba, do litoral ao sertão, das mais violentas às mais pacatas cidades. O sangue parece se espalhar por nosso mapa, como o líquido que se derrama no chão da sala. O sangue dessa geografia é sobretudo de negros, de homens e de pobres. Apesar de ricos e brancos também vítimas da violência seus corpos não são explorados pela mídia da mesma maneira.

Este fenômeno acontece porque o google imagem se alimenta de rotas de informação reunindo o que se diz sobre cada uma das palavras chaves indexadas. O que significa que estas imagens traduzem perfeitamente a natureza da narrativa que se produz sobre estas localidades na mídia local.

Não encontramos imagens de grupos artítiscos destas localidades, não sabemos sobre o rosto vivo das pessoas que ali moram, não conhecemos as belezas que tais bairros podem reservar. Só conhecemos deles as imagens que nos ajudam a sentir medo.  Se o tema pesquisado são os bairros mais “nobres” da capital, a natureza das imagens se altera completamente. Tambaú e Altiplano, por exemplo, têm retratos bem mais fáceis de contemplar:  





A mídia e a disputa por território    

O papel da mídia não se resume a construção simbólica da imagem de cada lugar. Essa relação é bastante sólida e tem impacto direto nas políticas públicas que são criadas para essas localidades.

O conflito vai além. Em João Pessoa, conhecemos bem a disputa por território entre dois grupos de jovens denominados como Eua e Okaida. Juventude que não por ironia se agarra na narrativa criada sobre as localidades onde moram como forma de afirmação de identidade. 

Em si, tal disputa já carrega uma geografia. Ou pelo menos carrega em si uma subversão da geografia. Traz para o Nordeste brasileiro uma disputa internacional, que coloca Bush, Obama, Sadam Hussein e Bin Laden juntos numa mesma cidade, e mais do que isso recupera o conflito da 2ª Guerra Mundial quando coloca em disputa os “americanos”, como são chamados os jovens ligados ao Eua versus os “alemães talibãs” da Okaida.

A mídia não se aparta desse conflito. A ausência de legislação reguladora da comunicação no Brasil amplia a violência que se pratica e aquela que a mídia pratica e também noticia. Este é o caso dos bilhetes dirigidos a um famoso apresentador local deixado em corpos de adversários assassinados.

É o caso do crime que vitimou duas mulheres. O esquartejamento delas aconteceu pois elas contrariaram os interesses do grupo Okaida. O crime ganhou uma grande visibilidade não só por sua crueldade, mas também pelo bilhete deixado que se referia diretamente ao apresentador de uma emissora local e “explicava” o que havia acontecido.


Infelizmente, este caso não foi o único. Os bilhetes seguem sendo instrumentos de comunicação entre grupos criminosos e a mídia local, que irresponsavelmente segue os utilizando como ferramenta para a prospecção de audiência. 

Essa relação precisa ser coibida pelo poder público, pois fornece a tais organizações o que elas mais querem e precisam: a visibilidade. Desse jeito e apoiados na máxima “apenas noticiamos”, a mídia falha e comete um grande crime ao reeditar a exposição pública de vítimas como instrumento para promover o medo. Reeditamos os tramites de crimes lesa-majestade, como foi o caso de Tiradentes, condenado, morto, esquartejado e cujas partes do corpo foram expostas em várias cidades mineiras.

Isto é uma afronta aos direitos humanos e ao estado de direito. E precisa ser coibida. Por de um lado baliza o ritual de justiçamento promovido pelos criminosos e de outro promove o seu próprio tribunal. Criando assim uma concepção absolutamente equivocada do que é justiça e como devem funcionar os seus rituais.

Justiça e visibilidade

Devemos pensar sobre o assunto pois a mídia nos atravessa, nos compõe. Estamos estruturando uma sociedade baseada na criminalização da pobreza e da periferia, do racismo, da homo, lesbo e transfobia e também da culpabilização das vítimas.

Em voga, este tipo de construção simbólica da justiça tem criado situações preocupantes. Uma delas é quando a população confunde as funções da mídia com as do Estado. Há dois anos, no Ceará, a família de uma garota de 9 anos que foi violentada por um vizinho, cujo crime foi gravado acidentalmente pela família, entregou o material registrado para a imprensa acreditando que daquela maneira teria a prisão do acusado garantida. A família não compreendia que a exposição pública da imagem da criança na televisão ampliaria o crime que ela sofreu. Situação similar aconteceu em nosso estado em 2011.

Isso nos coloca em alerta, visto que a mídia tem se transformado no principal recurso que a população frequentemente tem recorrido. Muitas vezes, quando acidentes acontecem durante o dia, é comum que ouvintes liguem primeiro para o rádio e depois para o Samu, por exemplo. Uma demonstração clara que passo a passo estamos esvaziando o Estado da sua função de atuar na resolução dos problemas da população.

Assim, fica claro que a mídia não só tem construído uma geografia do sangue, da cidade e de suas localidades, mas altera também as espacialidades das funções do Estado e da própria função quando abandona pouco a pouco o papel de mediador e assume o papel de liderança. 

Janaine Aires é doutoranda em Comunicação e Cultura, membro Peic/ECO-UFRJ e do Observatório da Mídia Paraibana

Janaine Aires / Autor

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