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Entrevista: "A diversidade do Brasil ainda não é expressada na sua mídia", destaca Pâmela Pinto

Janaine Aires
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Foto: Arquivo Peic
   

 A estrutura dos meios de comunicação no Brasil não permite que a diversidade de sotaques, culturas e políticas que nos formam ganhem o mesmo espaço na tela. A produção regional é muitas vezes entendida preconceituosamente como espaço da produção artesanal, arcaica, provinciana, oposto das qualificações da mídia nacional, caracterizada como industrial, profissional. O livro "Brasil e as suas mídias regionais: estudos sobre as regiões Norte e Sul", de Pâmela Pinto, propõe uma nova abordagem sobre a mídia regional. Considerando as diferentes articulações que compõe a mídia brasileira.  

Entrevistamos a autora Pâmela Pinto, cujo trabalho recebeu o Prêmio Compolítica de Melhor Tese concedido pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política. 


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No livro "Brasil e as suas mídias regionais: estudos sobre as regiões Norte e Sul", você questiona as perspectivas relacional assimétrica e superlocal sobre a mídia brasileira. O que caracteriza tais perspectivas e como elas afetam, cada uma a sua maneira, a comunicação? 

Pâmela Pinto: Ao fazer o levantamento da literatura sobre a mídia regional no país eu me deparei com dois tipos principais de produção: uma olhava a mídia regional como inferior, em relação ao mercado das grandes empresas de alcance nacional, e apontavam a relação entre mídia e políticos como “defeito” inerente ao mercado regional. Outra falava das suas mídias locais e regionais de forma super valorizada e isolada. De modo geral essas duas visões tratavam a mídia de forma homogênea e negligenciavam os elos entre o mercado e as empresas “de fora”. Busquei estudar as características das mídias de duas regiões distintas (o maior mercado regional fora do Sudeste, o Sul, e o menor, o Norte) para explicar esse cenário por um viés relacional, buscando entender como os conglomerados regionais eram formados, por exemplo. Em quase todos eles foi constante a afiliação às redes de rádio e TV de alcance nacional. Também achei interessante dividir as mídias em subgrupos (subestaduais, estaduais, supraestaduais) para verificar a heterogeneidade dos mercados regionais. 

Há algum impacto deste olhar assimétrico sobre a mídia na representatividade cultural e política do Brasil?   

Pâmela Pinto A diversidade do Brasil ainda não é expressada na sua mídia. O país começa e termina no Rio e em São Paulo na nossa principal mídia, a TV. Quem é de outras áreas percebe um conteúdo midiático muito centrado nesses dois estados. Essa perspectiva é reforçada por muitas pesquisas na academia, que tomam as questões desses mercados como nacionais. Isso está de certo modo ligado ao nosso modelo de mídia comercial, centrado em redes de TV, e concentrada em poucos grupos. A lógica de produção em rede de TV, criada nos anos 1970, na qual emissoras de cobertura nacional produzem conteúdo e as emissoras afiliadas entram com pouco espaço para o conteúdo local ainda é hegemônica. Hoje,  muitos programas regionais imitam os líderes de audiência das emissoras afiliadas, como programas policiais. Essa fórmula “garantida de audiência” limita outros formatos e temas nos conteúdos locais. 

A não regulação da mídia dificulta uma maior inserção da produção de conteúdos regionais, que valorizem a identidade e a cultural, e independentes na TV comercial. Esse apagamento do regional nos tira o direto à comunicação e à informação, pois não nos vemos, nos ouvimos pouco e não temos a nossa diversidade representada na mídia (tradicional). Nem todos os estados têm uma produção de jornais capaz de amenizar essa disparidade de representação na tela. Para completar, muitas emissoras de rádio local também são afiliadas à redes de rádio.  Com a internet, outras ferramentas para ampliar essa representação começam a circular, mas com alcance menor, pois a conexão ainda não é equilibrada no território. 


A produção acadêmica sobre a mídia brasileira, de certa forma, elabora conceitos sobre o nacional a partir de análises focadas em cidades da região sudeste. A partir da sua pesquisa, que analisou as regiões norte e sul, que características da mídia nacional se revelaram que até então permaneciam não estudadas?  

Pâmela Pinto O conceito de mídia nacional precisa ser relativizado. Excetuando a abrangência das redes nacionais de televisão, com cobertura de aproximadamente 100% do território, os demais veículos apresentam diferenças quanto ao seu alcance. Veículos como a revista semanal Veja, com tiragem média de 1,2 milhão de exemplares tornam o termo nacional coerente, mas quando comparamos a tiragem média de “grandes jornais” reivindicadores de influência nacional como Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo, que, somadas, atingem uma média de circulação de 810 mil exemplares (de acordo com dados ANJ em 2013), temos que relativizá-lo. Esses jornais não são distribuídos em todas as capitais. No Maranhão até pouco tempo não se encontrava o jornal O Globo em uma banca de jornal. Costumo usar a expressão, mídia de influência nacional, para delimitar essa não cobertura massiva no território.  

Outro aspecto relevante para entendermos nosso mercado de mídia, formado pelo conjunto de mídias regionais e as mídias de influência nacional, é que ele tem interfaces interdependentes. As redes de TV são o melhor exemplo dessa relação comercial entre empresas de grande porte as menores. No âmbito nacional muitas valorizam o apartidarismo e ou criticam práticas clientelistas de políticos no ambiento regional. Na prática, elas têm laços financeiros com grupos políticos regionais donos de mídias e “escondem” essas ligações. 
Observei na pesquisa que as principais redes de TV (Globo, SBT, Record, Band e Rede TV!) não informam sobre os afiliados - concessionários da TV locais; muitas afiliadas não disponibilizam sites e ou até a grade de programação. Não há transparência no uso das concessões públicas de rádio e TV. Com isso essas empresas se dizem desligadas de interesses políticos, enquanto localmente reforçam conglomerados regionais que dão suporte (ou pertencem) a políticos.  

   
A sua pesquisa aponta intensa concentração de veículos de comunicação nas mãos de políticos. Verificou-se algum tipo de conexão entre a geografia dos meios de comunicação e a geografia eleitoral? Quais os principais impactos desta instrumentalização política? 

Pâmela Pinto O controle do mercado regional por políticos ocorre de Norte a Sul e tem impacto direto na nossa vida democrática. Esses políticos controlam emissoras de TV e rádio, tornando-as palanques constantes e com isso inibem significativamente sua concorrência local, reelegendo-se. Para completar eles ainda transferem essa visibilidade e influência para seus herdeiros, fortalecendo seu grupo. Com essa base dominada, esses políticos se tornam atores na cena política nacional. Atuam em cargos estratégicos como ministérios, lideranças de governo e em comissões de profunda importância na área da comunicação, como a Comissão de Ciência, Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI).  

Na pesquisa localizei localizei 56 políticos ligados a 41 grupos, nos três estados do Sul. Identifiquei 34 políticos ligados a 26 grupos de mídia nos sete estados do Norte. Desses políticos, 20 estavam em exercício em 2015. Temos donos de conglomerados regionais e seus herdeiros à frente do ministério da Saúde, Ricardo Barros (PP); da Integração Nacional, Helder Barbalho, filho do senador Jader ; e o eterno líder do governo Romero Jucá, atuando de Lula a Temer. Cada um destes representantes têm um conglomerado regional e um grupo de políticos familiares controlando a política no Paraná, Pará e em Roraima , respectivamente.


Ricardo Barros, é deputado federal pelo Paraná há cinco mandatos. Localizei emissoras de rádio em Maringá, sua base eleitoral, vinculada à sua família. Ele é casado com a vice-governadora do Estado, Cida Borghetti, e pai da deputada estadual Maria Victoria. Jader tem um conglomerado forte no Pará, com jornais, Tv’s afiliadas à rede Bandeirantes, rádios e portais que formam a Rede Brasil Amazônica de Comunicação (RBA). Ocupa cargos públicos desde de a década de 1960 e também apoiou a carreira da ex-mulher, Elcione Barbalho. Ela vem sendo eleita deputada federal pelo Pará há cinco legislaturas. Romero Jucá é senador por Roraima desde 1995 e desde então tem ocupado cargos estratégicos. A família Jucá controla afiliadas às redes Band e Record com cerca de 14 concessões de radiodifusão no estado. Sua ex-mulher,Teresa Jucá, foi deputada federal no estado e há seis mandatos é prefeita da capital. O filho do casal, Rodrigo, foi deputado estadual.



AUTORA: Pâmela Pinto dedica-se à pesquisa da temática de mídia e política no Brasil, com ênfase nos mercados regionais. É graduada em jornalismo na Universidade Federal do Maranhão (2007) e tem mestrado (2010) e doutorado (2015) em Comunicação pela UFF. É professora substituta da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ).
RESUMO: O livro apresenta uma nova abordagem para o conceito de mídia regional no Brasil, entendendo-a como meio de comunicação existente em uma área geográfica, com articulação em diferentes níveis espaciais (o local, o regional e o nacional). Analisa os mercados midiáticos das regiões Norte e Sul, contemplando 29 cidades e 392 veículos na primeira e 824 veículos em 58 cidades na região Sul. Observa-se também o vínculo de políticos donos de mídia nas duas áreas e os reflexos dessa posse para a democracia brasileira. A pesquisa que originou o livro recebeu o Prêmio Compolítica de Melhor Tese, de 2017, concedida pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação e Política.
O livro está a venda no site da Editora Multifoco.

Janaine Aires / Autor

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