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Fascismo institucionalizado: a gente vê na TV Tambaú

Simão Vieira de Mairins


A história é cíclica e preciso discordar de Karl Marx nesse ponto: a repetição nem sempre é simplesmente uma paródia da tragédia inicial. Certas farsas trazem enredos que não permitem outro fim senão o trágico, sejam elas originais ou imitações. Pelo menos quando está em jogo a capacidade das sociedades de trazerem à tona monstros do passado.

Em 1963 a filósofa judia Hannah Arendt lançou o livro Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil. Em português o título é Eichmann em Jerusalém - Um relato sobre a banalidade do mal. A obra é uma coletânea das reportagens produzidas pela autora durante a cobertura do julgamento de Adolf Eichmann, nazista capturado em 1960 na Argentina e levado ao tribunal de Nuremberg.

Com grande repercussão midiática a nível global, seria o momento de mostrar ao mundo em detalhes a face mais raivosa do sanguinário Terceiro Reich, já que Eichmann era o responsável pela logística de envio de judeus para guetos e campos de concentração. Mas o que se viu foi o relato de um pacato burocrata cumpridor de ordens, que exterminava seres humanos como se carimbasse papéis num dia comum de trabalho. 

No livro sobre o julgamento de Eichmann, Arendt cunhou um conceito que ecoa até hoje: a banalização do mal. Trata-se, entre outras coisas, da institucionalização da violência - em suas mais variadas matizes. Algo que, infelizmente, não perdeu sua atualidade.

Na Alemanha dos anos 1930, o nazismo chegou ao poder pisando nas cinzas de um país em crise profunda. Dali até 1945 a ideologia - que se tornou dominante e passou a ditar as regras do Estado - promoveu de maneira estritamente legal o extermínio de cerca de 6 milhões de pessoas, inclusive crianças, das maneiras mais cruéis possíveis. E, para isso, contou com o trabalho dedicado de funcionários públicos exemplares e cidadãos comprometidos em ajudar seu governo como fosse possível.

Um caso atual

Quando vejo hoje uma emissora de televisão, detentora de uma concessão pública e na posição de formadora de opinião, colocar em debate o indiscutível, é impossível não enxergar como uma repetição perigosa da história.

A TV Tambaú, afiliada do SBT na Paraíba, lançou em sua página no Facebook nesta segunda-feira (12) uma enquete com a seguinte pergunta: "Homem fez certo ao tatuar jovem acusado de roubar bicicleta?", referindo-se ao caso em que dois indivíduos - já legalmente acusados de tortura - resolveram punir por conta própria um rapaz suspeito de roubo. A "vitória" esmagadora do sim não choca mais do que o simples fato de esse tipo de questionamento ter sido posto na mesa por uma organização detentora de uma concessão pública, numa posição de formadora de opinião e legalmente obrigada a respeitar e promover os direitos humanos e o estado de direito. 

Esse tipo de iniciativa, se não reconhece institucionalmente, pelo menos considera uma alternativa a possibilidade de o sistema legal definido sobre pilares minimamente democráticos ser subjugado pela parajustiça, o justiçamento das ruas, a barbárie, o caos. 

A retransmissora se esconde atrás da capa de mera aferidora do pensamento de seu público. Mas não faz só isso. A TV Tambaú, além de se propor a discutir o indiscutível, apresenta resultados de um levantamento sem qualquer critério e promove isso - mesmo que involuntariamente - como um retrato da sociedade em que se insere. 

A TV faz isso tendo como ferramenta apenas uma mídia social que espalha conteúdos através de algoritmos que exploram as congruência dos usuários, o que nos permite inferir que quanto mais pessoas optarem por uma opinião mais usuários que partilham da mesma visão serão impactados e opinarão também, retroalimentando sempre a mesma tendência. Sem contar que pesa ainda a mobilização coletiva dos lados postos em disputa, em que vence não necessariamente a opinião majotirária, mas a ideia de quem conseguir implementar melhores estratégias para conseguir apoio a seu ponto de vista.

Na divulgação da enquete, a retransmissora avisa que o resultado será "debatido" no dia seguinte, no programa Caso de Polícia, exemplar de um fenômeno que merece um artigo à parte, mas que precisa ser citado aqui como parte de um complexo maior, que insere também a enquete dentro de uma agenda midiática que depende da violência para existir.

O justiçamento praticado contra o jovem tatuado na testa - independente do crime cometido (ou não) por ele - foi um ato bárbaro. Medieval. Que passou por cima do processo legal de um regime democrático de direito.

Nos anos 1930, a crise alemã abriu caminho e garantiu apoio popular para uma ideologia genocida reinventar o estado e impor seu paradigma, transformando-o ele próprio no estado de direito. 

Certos caminhos acabam nos levando sempre ao mesmo lugar. Mas ainda dá tempo de alterar a rota, lembrando sempre que mídia constrói verdades, mesmo que seja repetindo cotidianamente mentiras.

Simão Vieira de Mairins / Autor

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