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Entrevista: "Do mesmo modo que se pede uma autoanálise dos três poderes, é necessária uma autocrítica da mídia", afirma Juliana Rosas

Janaine Aires
Foto: Arquivo Pessoal. 
Entrevista por Janaine Aires 

A produção jornalística tem ocupado espaço central nas disputas políticas contemporâneas. A crítica ao exercício jornalístico tem papel importante na construção do equilíbrio e da redução de possíveis danos sociais que possam resultar de um prática equivocada de apuração, de produção e de difusão das informações. Dentre as práticas que visam estabelecer sistematicamente a autoavaliação da produção figura o "Ombudsman", profissional que acompanha criticamente os periódicos. 

Regionalmente, o jornalismo paraibano foi pioneiro na adoção deste tipo de análise crítica nas redações. Para refletirmos sobre este aspecto de nossa mídia, entrevistamos a pesquisadora Juliana Rosas, autora do livro "Da gélida Suécia à cálida Paraíba: o pioneirismo regional do ombudsman Paraibano entre críticas, estratégias e conflitos de ethos", publicado pela editora Nea - Novas Edições Acadêmicas


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Há um tipo de discurso que desqualifica a crítica como um elemento importante para a transformação social, traduzida na ideia de que "aquele que não sabe fazer, resta criticar". A crítica de mídia pode contribuir com a sociedade?

Creio que esta afirmação é tão, digamos, preconceituosa, do que aquela “quem sabe faz, quem não sabe, ensina”. O jornalismo já foi tomado como o “quarto poder”. Concordando ou não com a afirmativa, isso demonstra que, enquanto poder (como todos os outros), ele pode e deve ser criticado. Assim como é útil à sociedade a crítica aos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário (algo bastante em pauta), a crítica à mídia pode provocar mudanças. E do mesmo modo que se pede uma reforma ou autoanálise dos outros poderes, é necessária uma autocrítica da mídia, até para que ela possa rever seus conceitos enquanto prestadora de serviço à sociedade.
  
Sua pesquisa indica que o jornalismo paraibano foi pioneiro na atuação de ombudsman. Que elementos locais colaboraram com o surgimento? E como se deu o ocaso deste tipo de exercício no jornalismo impresso? 

O pioneirismo nacional do ombudsman em jornal impresso aconteceu na Folha de S. Paulo, em 1989. O ombudsman do Correio da Paraíba foi o segundo no país e o pioneiro na região Nordeste. Uma série de fatores contribuíram para isso. Faço uma análise mais abrangente na minha pesquisa, mas se puder resumir diria que o ombudsman de imprensa emergiu no país em meio uma série de fatores e situações contingentes, como a nova democracia brasileira, valorização do consumidor e eclosão de dispositivos democráticos de participação. Eis uma explicação do professor e pesquisador Marcelo Bronosky que usei:

As condições de sua adoção [do ombudsman] no jornalismo brasileiro se deram em vários aspectos, pelas mudanças que o jornalismo sofreu nas últimas décadas especialmente a partir do processo de transformação das redações iniciado por volta de 1950, quando diversos jornais modernizaram, racionalizaram e profissionalizaram seus modos de edição, redação e organização (...). Somados a esses aspectos, ocorre desde 1980, um salto tecnológico no interior das redações, com a adoção de terminais de computadores em substituição a máquinas de escrever, além do processo de consolidação da lógica jornalismo-empresa, que concomitantemente, colaboraram para a criação de condições para se intensificar a relação dos leitores no jornalismo. O processo de redemocratização possibilitou o funcionamento de uma imprensa livre das pressões do Estado autoritário. Com maior liberdade, os grandes jornais voltaram-se exclusivamente a se preocupar em aumentar o número de leitores, espectadores que assumiam mais claramente a posição de consumidores. (BRONOSKY, 2010, p. 106-107).

Na Paraíba, o jornalismo – e certamente o jornal Correio da Paraíba, dadas as devidas circunstâncias, também sentiram as mudanças. Em 1990, o Correio tem um novo superintendente, que implanta uma série de mudanças logísticas, comerciais e na redação do jornal. Em seguida, entra um novo editor, que implanta o Projeto Líder e que, assim como o superintendente, queria levar o Correio da Paraíba ao primeiro lugar em vendas e prestígio, uma vez que estava em longínquo segundo lugar, atrás de O Norte, hoje extinto.

Quais são as atribuições do Ombudsman e em que ele contribui para a sociedade?    

De acordo com as Diretrizes para Ombudsmans de Imprensa, aprovadas em 1982 pela Organization of News Ombudsmen (ONO),
Os objetivos de um ombudsman de jornal devem ser:
  • Aperfeiçoar a equidade, exatidão e responsabilidade do jornal;
  • Aumentar sua credibilidade;
  • Empenhar-se para melhorar sua qualidade;
  • Tornar o jornal consciente das preocupações e problemas das comunicações por ele servidas.
 Os deveres do ombudsman devem incluir:
  • Funcionar como crítico interno;
  • Representar o leitor que tem reclamações, sugestões, questões ou cumprimentos;
  • Investigar todas as queixas e recomendar ação corretiva quando for o caso;
  • Alertar o diretor de Redação sobre todas as queixas;
  • Fazer conferências ou escrever para o público sobre as linhas, as posições e as atividades do jornal;
  • Defender o jornal, publicamente ou em particular, quando for o caso.
 Alguns dos meios de que o ombudsman dispõe para chegar a seus objetivos e cumprir suas tarefas incluem:
  • Uma coluna;
  • Memorandos internos;
  • Reuniões com as equipes;
  • Questionários;
  • Conferências.
  • O ombudsman deve ser independente e esta independência deve ser real. Ele deve responder apenas à pessoa com mais alta autoridade na redação.
Dito isso, cada jornal terá suas regras e cada ombudsman desenvolverá um perfil de trabalho. Em resumo, na Folha de S. Paulo, o trabalho do ombudsman consiste em: realizar uma crítica diária à edição do jornal; atender ao leitor; fazer uma crítica dos meios de comunicação numa coluna publicada nas edições de domingo – onde faz uma análise da atuação da Folha (e quiçá dos outros jornais), aborda questões éticas e tira dúvidas que o noticiário deixa.

Em que sentido este tipo de exercício crítico pode ser também uma estratégia de marketing? 

A palavra marketing ganhou uma má conotação na nossa sociedade, em especial no Brasil. Na minha pesquisa, considerei o marketing em sentido de trocas, conceito de Raimar Richers (2001), mas do que somente em sentido mercadológico. De acordo com jornalistas que já exerceram o cargo de ombudsman, como Caio Túlio Costa (Folha) e Lira Neto (O Povo), tal cargo não perdura caso o marketing seja a única preocupação do veículo.

De acordo com as análises, considerei que a entrada da função de ombudsman no Correio da Paraíba pode até ter sido uma estratégia de marketing. Ou melhor, fez parte de uma série de estratégias: mercadológicas, estruturais, de visibilidade, logísticas e jornalísticas para melhorar o produto e fazer com que este fosse mais lido, fato justificável. Caso a adoção de um sistema de crítica ou melhorias (ou ouvidoria, etc) seja implantada em um jornal ou em qualquer empresa como estratégia de marketing, logo esta verá que tal estratégia deverá ser constantemente sustentada ou imagem e serviços da empresa ruirão.

Por exemplo, se uma empresa lança uma excelente propaganda de um produto, pode até fazer que inicialmente a procura por este seja grande. Porém, caso o produto não atenda a expectativa dos consumidores, logo esta ilusão de fachada irá sumir.

Como a sociedade pode criar mecanismos de "media criticism"? É possível apontar características exclusivamente brasileiras e regionais?

Estou começando minha pesquisa de doutorado e esta é exatamente uma das questões que pretendo responder. Mencionei em meu projeto que não parece haver estudos que indiquem uma característica geral da crítica de mídia brasileira, assim como há em outros países, como Estados Unidos e Japão.

Quem responde melhor a essa primeira questão é o brilhante pesquisador José Luiz Braga em “A sociedade enfrenta sua mídia - dispositivos sociais de crítica midiática” (2006). Dispositivos clássicos e/ou conhecidos de críticas são, além do ombudsman, Conselho de Leitores, Observatórios de Mídia, etc. Outro excelente autor da área, o francês Claude-Jean Bertrand, definiu tais dispositivos de crítica como Media Accountability System (MAS) (BERTRAND, 2002).

Os MAS são quaisquer meios de melhorar os serviços de mídia ao público, totalmente independentes do governo. Espera-se que atinjam seu objetivo aumentando a competência dos jornalistas e descobrindo (por meio de observação e análise) o que a mídia faz e não faz, em comparação com o que deveria fazer. E sobretudo, os MAS capacitam os veículos de comunicação a ouvir as opiniões dos consumidores, a saber do que gostam, não gostam ou podem vir a gostar. Graças a eles, a mídia consegue descobrir, corrigir, explicar seus erros e equívocos, desculpando-se por eles. Esses sistemas são um misto de controle de qualidade, serviço ao consumidor, educação contínua e muito mais – não apenas, decerto, auto-regulamentação. Aos cidadãos, os MAS devolvem os direitos humanos que a casta dos profissionais de mídia costuma confiscar. (BERTRAND, 2002, p. 35)

Redes sociais e tecnologias contemporâneas são ou podem ser fontes de críticas, como fazem blogs, sites ou agência de notícias independentes. Movimentos sociais também podem exercer este papel. Porém, com relação a estes últimos exemplos, convém o leitor interessado procurar mais pesquisas. O impacto de novas mídias e redes sociais na mídia é um assunto amplo, que excelentes pesquisadores muitas vezes não têm uma opinião definitiva. Do mesmo modo, muitos movimentos sociais novos e não tradicionais são efêmeros e não causam o impacto social esperado.



AUTORA: Mestre em Comunicação pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná, possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo, pela Universidade Federal da Paraíba e especialização Sociologia. Atua profissionalmente na área de comunicação, jornalismo e assessoria de imprensa. Pesquisas na área de comunicação envolvem jornalismo, crítica jornalística, mediacriticism, ethos profissional, comunicação e política. Atualmente, é doutoranda no Programa de Pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.

RESUMO: Você conhece alguma experiência de ombudsman de imprensa no Brasil? Provavelmente conhece a do jornal Folha de S. Paulo. Mas conhece o pioneirismo regional do ombudsman paraibano? Uma importante experiência de crítica de mídia onde muitos não esperavam existir. Esta pesquisa de mestrado - agora transformada em livro - apresenta a trajetória dos três ombudsnatos do jornal Correio da Paraíba. O ombudsman paraibano foi o segundo a surgir no Brasil, dois anos após a Folha de S. Paulo e foi o pioneiro nas regiões Norte/Nordeste, dois anos antes do cearense O Povo – estes, os únicos impressos do país a possuir o representante do leitor atualmente. Aqui, objetivou-se traçar um histórico dos três anos de vigência do ombudsman no Correio, de 1991 a 1993 e mais uma vez em 1995, levando em conta o contexto geográfico, político e jornalístico da época. Utilizando-se de análise de conteúdo, a pesquisa traz categorias para as 142 colunas analisadas e realiza uma análise qualitativa do corpus a partir de conceitos e reflexões sobre Media Accountability Systems (MAS), crítica de mídia, ethos jornalístico e empresarial, e estratégias de visibilidade que permearam a experiência.

O livro está à venda no site da Editora Novas Edições Acadêmicas


Janaine Aires / Autor

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