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Oficina de Leitura e Produção Crítica de Mídia

Janaine Aires
Oficina de Leitura e Produção Crítica de Mídia


Oficineira: Janaine S. Freires Aires


“Dialogar não significa invadir, manipular ou ‘fazer slogans’. Trata-se, isto sim, de um devotamento permanente à causa da transformação da realidade” Paulo Freire

Introdução
“O termômetro que mede a democracia numa sociedade é o mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação.” Herbert de Souza, o Betinho [Mídia e Democracia, 2006]


O presente projeto traz a proposta pedagógica da Oficina Leitura e Produção Crítica de Mídia, voltada para jovens e adultos. A oficina será submetida ao Edital de Oficinas Culturais nos Bairros da Fundação Cultural de João Pessoa, a Funjope.

A proposta tem como objetivo principal colaborar para a formação de espectadores críticos quanto ao papel social da mídia, bem como capazes de produzir conteúdo midiático. Como suporte para a difusão do que será discutido e produzido na oficina, adotaremos veículos de comunicação alternativos: como Fanzines, Blogs, Jornal Mural, peças para Rádios Comunitárias e etc.

A oficina leva em consideração o fato de que a mídia ocupa espaço fundamental no processo de formação da identidade cultural da sociedade. É ela quem fornece grande parte da matéria-prima que será utilizada pelo nosso sistema cognitivo para definir quem somos e do que gostamos. Como norte, a oficina adotará a perspectiva de que é preciso investir na mentalidade social que cobre excelência na produção midiática e na urgente necessidade de Democratizar a Comunicação.

Entendemos que a comunicação articula e permite a visibilidade das manifestações culturais, além de ser instrumento importante na formação da identidade dos sujeitos. Inserida na lógica de mercado, a comunicação projeta o cruzamento entre as diversas esferas sociais fundamentando-se na busca pelo lucro. Os meios de comunicação comercial, guiados pela lógica de mercado, têm colaborado com o processo de criminalização da pobreza, a desvalorização de suas expressões culturais e o ocultamento de sua história

A oficina de Leitura e Produção Crítica de Mídia pretende seguir a contramão desta realidade e contribuir para a formação de sujeitos críticos ao papel desenvolvido pela mídia, principalmente no que se refere à criminalização da pobreza e a desvalorização de suas expressões culturais.

Fundamentação Teórica

Diariamente, a mídia paraibana “escreve” a história de diversas comunidades do Estado. Embora se apresente como imparcial, a mídia representa a visão de uma classe sobre a outra. Representa interesses econômicos, políticos e ideológicos. Além de estar protegida pelo monopólio dos meios de comunicação.

Representando o tecido simbólico da nossa vida, a mídia interfere no consciente e no comportamento humano, sendo a expressão da nossa cultura e o ponto principal de articulação do seu funcionamento. (CASTELLS, 1999)

A sociedade é atravessada pelas lógicas midiáticas, o que significa que é preciso atuar na mídia para existir socialmente. Neste contexto, a televisão é um instrumento chave para compreender esta realidade. Embora seja definida como um instrumento de registro, ela é um mecanismo de criação da realidade e “se torna o árbitro do acesso à existência social e política” (BOURDIEU, 1997, p. 29-30)

Com a ascensão das redes sociais como mecanismos de mediação de debates e construção da agenda pública, outro modo de perceber e lidar com a comunicação está surgindo. Muito embora ainda persistam formas verticais de informação, as redes sociais permitiram a promoção de novos modos de agenciar o debate público.

“O público, cada vez mais, percebe que a relação com os meios de comunicação pode ir além do simples contrato de receber passivamente pacotes de informações e entretenimento. O público, cada vez mais, quer participar do processo, quer interagir, opinar, criticar e sugerir. Essa mudança de cultura já está infiltrada nas sociedades e ganha maior evidência nos contextos em que a democracia está mais consolidada. Isto é, hoje, a cidadania também é exercida na arena da mídia, na frente da TV, ao pé do rádio, diante da telinha do computador ou das páginas impressas. Nas últimas duas décadas, diversos instrumentos de participação e leitura da mídia foram criados, disseminados e aperfeiçoados.” (PAIVA, 2010 apud CHRISTOFOLETTI)


Não podemos esquecer que o exercício da cidadania também se dá na esfera da mídia. Afinal, a comunicação é um direito humano. Os grandes meios de comunicação enquadram a cidadania em uma redoma de vidro para que ela seja visualizada no conforto da poltrona de casa. É através de ações como o “Criança esperança”, o “Amigos da Escola” ou mesmo quadros famosos como de “Volta para minha terra”, “Meu aconchego”, que os meios de comunicação aludem ao seu papel social. Ocultam a sua qualidade de concessão pública e apostam na equação ‘não gostou = mude de canal’, como um exercício de liberdade. Quando não é.

Precisamos instigar comunidades a participar do debate público, intermediar, questionar, formular sua agenda, visualizar o que é notícia o seu redor. Aproveitar o fato de que muitas delas já se apresentam equipadas de tecnologias digitais. Além disso, a Leitura Crítica da Mídia também precisa avaliar e analisar a estrutura normativa que rege as comunicações no Brasil, criminalizando experiências de Democratização da Comunicação, como as Rádios Comunitárias, por exemplo.

Na Paraíba, as empresas de comunicação trataram de apontar produtos de comunicação como o jornal “JÁ”, tablóide sensacionalista distribuído por 0,25 centavos, ou mesmo programas de tevê como o “Cidade em ação”, hoje comandando por Anacleto Reinaldo – o repórter chumbo grosso - como exemplos de comunicação popular. Estes produtos, de fato, gozam de bastante audiência e penetrabilidade na sociedade paraibana, porém vão à contra mão do que consideramos como Comunicação Popular.

Para exemplificar, vamos apontar, brevemente, o perfil do repórter supracitado. Anacleto Reinaldo tem 34 anos de profissão, com ênfase no rádio. Sua contratação no Sistema de Comunicação Arapuan é recente, mas é uma resposta a saída do apresentador Samuka Duarte e o repórter Emerson Machado, também contra exemplos de jornalismo, para outro sistema de comunicação. Anacleto é conhecido como chumbo grosso graças às suas opiniões polêmicas, livremente veiculadas pela manhã nas ondas da rádio 101 FM. Na sua opinião, o verdadeiro nome da Lei Maria da Penha, que estabelece prisão para homens responsáveis por violências contra a mulher, deveria ser “Lei Maria Rapariga”. Anacleto acredita que os homens não batem em mulheres para machucá-las. Apenas aplicam medidas para sua educação. O radialista estende esta perspectiva política rasteira a programas sociais como o Bolsa Família, instituído pelo governo Fernando Henrique e ampliado na era Lula. O programa recebe a alcunha de “Bolsa Vagina”, já que seria um incentivo a natalidade das classes mais pobres. Na chamada de seu programa, que tem perfil policial, Anacleto promete dar “cacete em bandido”. Não podemos duvidar desta promessa, ele mesmo já admitiu ter atirado contra bandidos em quatro ocasiões diferentes.

Compreendemos que a verdadeira comunicação popular é aquela cujo “sentido político é o fato de tratar-se de uma forma de expressão de segmentos excluídos da população, em processo de mobilização visando atingir seus interesses e suprir necessidade de sobrevivência e de participação política”(PERUZZO, 2006) Para levar nossa proposta a diante, adotaremos os princípios públicos caros às expressões de comunicação comunitária como centros da nossa proposta didática: 1. Não ter fins lucrativos; 2. Propiciar e estimular a participação ativa da população; 3. Ter propriedade coletiva; e 4. Difundir conteúdos com a finalidade de educação, cultura e ampliação da cidadania.

Vivemos um contexto midiático não só carente de regulamentação, mas também repleto de desafios profissionais. Um deles é a não-obrigatoriedade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão, que suscita uma série de discussões e é uma provocação para os cursos universitários. Voltados para o mercado e apoiados no ensino técnico da profissão, os cursos de comunicação tiveram de engolir a pressão do próprio mercado em desregulamentar a atividade de profissionais formados. Mesmo diante de tanto alarde, restou o desafio para as universidades: e agora, para quem vamos formar profissionais?

É preciso destacar que a Leitura da Mídia, aquela que se pretenda crítica, não pode prescindir de compreender o desenvolvimento histórico da profissão do jornalista, a estrutura na qual ela está inserida. A profissão é cercada de mito, heróis, ícones. Levaremos em consideração o processo que se esconde por atrás deles e desenham sua imagem. Buscaremos perceber as maneiras de olhar, as maneiras de agir, a maneira de falar, a maneira de ver da comunidade jornalística, para assim refletir sobre ela. Isto é fundamental para compreendermos a economia simbólica que se arquiteta na tela da tevê, nas ondas do rádio e da internet. Mas também é importante para visualizar a economia política e cultural que está atrás do espetáculo midiático.

Aqui, como exemplo, vamos trazer mais uma vez o Sistema Arapuan que está em franca ascensão. O dono do sistema de comunicação também é dono de casas de shows da Paraíba. Sempre que estão agendados espetáculos, a TV e o rádio passam a veicular material do artista que irá se apresentar. Devemos salientar que está veiculação é mais do que uma mera publicidade. É preciso abrir olhos para esta realidade, principalmente no que se refere à difusão dos bens culturais da Paraíba. As manifestações culturais passam a ser vistas apenas sob a ótica do lucro. Não interessa a exibição de um filme paraibano, se o anunciante da empresa for um grande Cinema. Não interessa a roda de coco, se a ordem da vez é colaborar com a venda de abadás.

Na oficina Leitura e Produção Crítica de Mídia, adotaremos com desafio propor a utilização das redes sociais como um instrumento de expressão das comunidades. Nossa cerne será investir na perspectiva crítica e no empoderamento, por parte da comunidade, do debate público, do processo de formação da sua imagem, embarcando ‘na inclusão e na participação’ proporcionada pelas novas mídias, de modo questionador da realidade. Afinal, “se a globalização propicia - para pior - a pulverização do jornalismo crítico investigativo, reconfigura - para melhor - as redes sociais de informação, inaugurando um estilo de comunicação mais includente e participativo” (PAIVA, 2010)

“A notícia como surge diariamente, e como é concebida, está em oposição radical à história. De fato, o sistema de ciclos ao longo do dia noticioso tende para a abolição da consciência histórica, criando uma perpétua série de primeiros planos à custa do aprofundamento e do background” (TRAQUINA apud SCHLESINGER). Estimularemos a busca por este background.

Parafraseando Muniz Sodré, em Antropológica do Espelho (2002), na Oficina de Leitura e Produção Crítica de Mídia procuraremos mostrar que a mídia implica uma nova qualificação da vida. Sua especificidade, em face das formas de vida tradicionais, consiste na criação de uma conduta/costume/cognição/sensorialismo. Cabe destacar que, não percebemos as novas tecnologias como mágicas. Nelas também são reproduzidas opressões do atual sistema. Por isso, as oficinas acatarão em sua metodologia discussões que envolvam a sexualidade, a violência, a mobilidade urbana, a educação, a criminalização dos movimentos sociais, a fetichização da vida. É preciso “ler não somente o que está escrito ou a imagem mostrada, mas o não dito, o silêncio, o oculto, os rastros deixados pelos meios de comunicação” (GUARESCHI & BIZ, 2006)


Justificativa

Acreditamos que é fundamental promover, através da educação e da valorização da cultura popular, a ruptura com o fortalecimento da ideia de que a abordagem da mídia é natural. “É necessário perceber que ela constrói ativamente o mundo em que vivemos. Parece-me importante que tenhamos uma atitude reflexiva e abordagem crítica a respeito da natureza e do papel da mídia nas sociedades modernas.” (THOMPSON, 2002)


Compreendemos que “o texto jornalístico é um espaço habitado, em um universo em movimento: ‘ler’ é por em movimento esse universo, aceitando-o ou recusando-o. indo à direita ou à esquerda, investindo mais ou menos esforço, fingindo escutar ou escutando” (VIZEU, 2006)

Uma oficina de Leitura e Produção Crítica de Mídia, neste contexto, nasce como um espaço de resistência às opressões veiculadas diariamente pelos meios de comunicação. É através dela que poderemos questionar os monopólios, despir os meios de comunicação da aparente imparcialidade e investigar as arbitrariedades.


Objetivos


Objetivo Geral:

Formar sujeitos críticos à produção midiática, especialmente a paraibana, e difundir conhecimentos necessários para a produção de mídia.

Objetivos Específicos:

Manter um blog para o compartilhamento das reflexões geradas pelas discussões da Oficina;
Ampliar a capacidade da comunidade de registrar sua história;
Fomentar a utilização de veículos alternativos de comunicação: fanzines, redes sociais, blogs, rádios comunitárias;
Difundir as manifestações culturais da comunidade;
Conectar a comunidade a experiências de democratização da comunicação e a plataformas de jornalismo colaborativo.


Metodologia


Para nós, a comunicação é “a co-participação dos Sujeitos no ato de pensar, é reciprocidade, é diálogo, na medida em que não é transferência de saber, mas um encontro de Sujeitos interlocutores que buscam a significação dos significados.” (FREIRE, 2002)

Nossa perspectiva metodológica é Freriana, acreditamos que o conhecimento não se estende de quem se julga sabedor a quem se julga não saber, ele se dá problematização das relações homem-mundo. Nossa prática educativa será “um exercício constante em favor da produção e do desenvolvimento da autonomia de educadores e educandos” (FREIRE, 1997)

As aulas serão arquitetadas de modo a suscitar a leitura dos silêncios e dos interditos. Ao mesmo tempo em que adotaremos como instrumento didático a própria produção midiática, pretendemos dar voz à produção independente, ao que está fora do mercado e que representa a produção midiática paraibana, a exemplo do Cinema Paraibano, ainda pouco apreciado e difundido no estado.

A oficina pretende conectar a comunidade assistida com experiências locais de ‘Midialivrismo’ e plataformas de Jornalismo colaborativo. Além da valorização das obras audiovisuais como ferramentas pedagógicas, dedicaremos atenção a difusão e ensino da linguagem jornalística e de Práticas Experimentais em Telejornalismo, a fim de dotar a comunidade de sujeitos capazes de ‘concorrer’ com a produção midiática local.

Como estratégia metodológica, vamos investir na conexão das discussões com a produção e a difusão desta produção na comunidade e fora dela. Como experiências práticas, pretendemos desenvolver ‘Recortagens’ – reportagens construídas com o recorte de outros enquadramentos jornalísticos, para discutir esta questão; Fanzines; Expedições fotográficas, sonoras e audiovisuais; Clippings de reportagens sobre a comunidade; Material Gráfico próprios; Exercícios de educação do olhar; e etc.

O material didático da oficina será construído de acordo com as necessidade da comunidade. Porém, adotaremos planos básicos com uma bibliografia que mescle a teoria e a sua visualização na prática. Cada módulo contará com um plano bibliográfico próprio, aliado a propostas de debates, exibição de filmes e material produzido pela mídia paraibana. Todo o material será distribuído gratuitamente a cada participante e já está previamente planejado, aguardando o primeiro contato com os participantes para ser adequado e fechado.


Cronograma de Atividades por oficina

I Módulo : Acertando os pontos

Apresentação geral

O que é a Comunicação? Funcionamento das mídias de discurso hegemônico e suas redes de mercado; ideologia e preconceituações; normatização social e criminalização do diferente; opressões sociais na e pela mídia;

Quem são os donos dos meios de comunicação? Leis gerais de normatização da área. Produção de Notícias; Dinâmicas de trabalho sobre os conceitos de imparcialidade, objetividade;

Características da Linguagem Jornalística Gêneros Jornalísticos; Práticas Experimentais em Telejornalismo; Comunicação em suportes digitais: blogs, twitter, plataformas de jornalismo colaborativo; Exercícios de linguagem do olhar.


II Módulo: Processos de leitura

A notícia na construção da identidade. Construindo novos critérios de noticiabilidade; O que é notícia aqui?; Processos de Apuração, Redação e Edição;

E o que andam dizendo de nós e para nós? O campo da comunicação e suas convergências sociais. Comunicação e Saúde, Comunicação e Política, Comunicação e Segurança Pública, Comunicação e Educação, Comunicação e Economia;

Desde quando eu falo errado!? Falas de autoridade. As relações de poder e a notícia. A charge. Técnicas de Entrevista;


III Módulo: A reflexão praticada

Vamos FOTOGrAfAR! História do Fotojornalismo. Técnicas de enquadramento. Fotografia em meios alternativos e econômicos;

Vamos ao Cinema! Linguagem Cinematográfica. Crítica de Cinema. Mostra do Cinema Paraibano;

Organizando as idéias! Técnicas de diagramação. Básico de diagramação. Contraste, construção de imagens, colagem, organização do olhar;

Vamos publicar! Finalização das atividades, difusão do material produzido.


Público Alvo


O público-alvo das oficinas varia entre adultos e jovens, de preferência em turmas separadas, pois a forma de aplicação da metodologia varia com a faixa etária. Serão turmas de 20 a 30 pessoas, de todas as identidades de gênero.


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